Todo mundo sabe que o Brasil é musical.
Aqui se dança conforme a música.
A música parece ser sempre a mesma, mas tem ritmos diferentes.
Questão de compasso, de tom e de bando. Quer dizer, de banda.
Dança-se muita quadrilha.
Vamos ao que interessa.
Solta o som.
Aconteceu de repente. Certa tarde, ouviu-se um estrondo seguido pelo refrão “vira, virou”. Foi assim. Tudo se inverteu em poucos dias. O DEM e o PSDB, baluartes da direita neoliberal, passaram a defender o fim do Fator Previdenciário como forma de proteger os aposentados da corrosão de suas pobres pensões. Na televisão e no Congresso, o DEM tornou-se o maior defensor dos direitos trabalhistas contra o furor arrecadatório do governo de esquerda. Mesmo avisados de que o Fator Previdenciário fora uma criação do liberal Fernando Henrique Cardoso, os tucanos votaram pela sua alteração, impondo ao governo mais uma derrota. Já o Partido dos Trabalhadores converteu-se à ortodoxia aplaudida pelo FMI, pelo Banco Mundial e por Davos.
O seu lema passou a ser responsabilidade fiscal. Sem cortar ministérios.
Vira, virou! Nunca em tão pouco tempo um partido defendeu tantas restrições aos direitos trabalhistas quanto o Partido dos Trabalhadores. Em poucas semanas, o PT investiu contra as pensões por morte, o seguro-desemprego, o seguro defeso para pescadores e, por fim, saiu a campo em favor da manutenção do Fator Previdenciário, o mecanismo mais injusto, escorchante e letal para aposentados. Os petistas imploraram para que o Fator Previdenciário fosse mantido. Felizmente a direita fez ouvidos moucos. Um valor maior foi sustentado por governistas: o equilíbrio das contas. A direita agora fala em conquistas dos trabalhadores. A esquerda, convertida tardiamente ao ideais que sempre combateu, prega só gastar de acordo com a arrecadação.
Estaria o país diante do maior estelionato eleitoral da sua história? A vaca tossiu. A vaca está engasgada.
As centrais sindicais não sabem onde se enfiar.
Na dúvida, enfiam-se embaixo da saia do governo. Salvo a Força Sindical, que adota a filosofia do famoso Chacrinha: vem para confundir. É a favor das terceirizações e contra o Fator Previdenciário. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem fama de ser tucano, mas os tucanos votam contra ele, enquanto os petistas, de rabo entre as pernas, dão-lhe apoio. Vira, virou. A oposição vem humilhando o governo. Os seus aliados do PMDB fazem ainda pior: humilham e cospem no olho. Aprovam medidas de economia propostas pelo governo e, imediatamente, fazem passar outras que anulam esses mesmas economias.
Deu a louca geral. Que beleza! Em fevereiro tem carnaval.
O Brasil vem assistindo a cenas incríveis: Ronaldo Caiado (DEM) só falta entrar no MST. A CUT não consegue descer a rampa do Planalto. Os tucanos alçam voos cada vez mais rasantes. O PMDB, feito uma ave de rapina, contempla os restos mortais do governo certo de que o banquete só está começando. A situação é tão nebulosa que qualquer descrição se torna imprecisa. Certo mesmo só que a esquerda brasileira hoje é representada pelo DEM e pelo PSDB. O PT tomou o lugar que era da direita e não pretende ceder.
Se duvidar, haverá uma fusão do Fórum Social Mundial com o Fórum de Davos.
Ou o pessoal que vai à Suíça não se mistura com gente da nova direita? Vira, virou.
Tanto virou que tudo continua igual.
A política brasileira é funk.
Vai até o chão.