Woody Allen, Machado de Assis e o complexo brasileiro de inferioridade
O Brasil comemorou como uma vitória em Copa do Mundo.
Virou assunto em telejornais em rede nacional.
Woody Allen gosta de Machado de Assis.
Woody Allen coloca Memórias Póstumas de Brás Cubas entre seus cinco livros preferidos.
Junto, por exemplo, com uma biografia sem qualquer importância artística do cineasta Elia Kazam.
A tradução americana de Memória Póstumas reduziu o título da obra ao simplismo estilo Hollywood: memórias de um perdedor. Tudo precisa ser classificado como herói ou vilão, vencedor ou perdedor.
A comemoração brasileira com a preferência de Woody Allen é um atestado de complexo de inferioridade.
Um recibo de que falta legitimação internacional para Machado de Assis.
O mesmo já tinha acontecido quando Susan Sontag citou Machado de Assis.
A França não gastaria uma linha de júbilo se Woody Allen tivesse citado Marcel Proust entre seus preferidos.
Consideraria normal, óbvio, tudo em honra de Woody Allen, não de Proust.
A Rússia não moveria um músculo se Woody Allen tivesse falado em Tolstoi ou Dostoievski.
Seria apenas um atestado de boa cultura e de bom gosto do cineasta americano.
Nada capaz de influenciar a ideia que o mundo tem dos grandes escritores russos.
O Brasil, nesse campo, repete o Rio Grande do Sul.
Os gaúchos adoram se vangloriar das suas diferenças em relação ao Brasil.
Mas vira notícia no Rio Grande do Sul quando um "dos nossos" é reconhecido "lá fora", Rio e São Paulo.
Até ser entrevistado pela Marília Gabriela e pelo Jô Soares dá notícia aqui.
Pura caipirice. Provincianismo rastaquera.
Nenhum brasileiro pisca de emoção quando um europeu se diz fã de Garrincha, de Pelé, de Romário, de Ronaldinho Gaúcho, de Kaká ou de Ronaldo Fenômeno.
É que eles não precisam de legitimação no estrangeiro.
Quem os admira é que se legitima ao citá-los.
Woody Allen gostar ou não de Machado de Assis não tem qualquer importância.
Salvo para a legitimação de Woody Allen como bom leitor.
Comemorar o contrário é reconhecer que Machado de Assis ainda não figura inquestionavelmente entre os grandes escritores universais. E não adianta culpar a língua. Fernando Pessoa superou todas as barreiras.
Como diria Nelson Rodrigues, continuamos com complexo de vira-lata.