Yeda e a educação
O governo de Yeda Crusius é um mistério. Tudo nele parece enigmático. Quando se pensa que vai para um lado, vai mesmo, mas simulando ir para outro. Salvo se ao ir para um lado esteja mesmo indo para outro sem que ninguém perceba. Talvez se trate da velha estratégia leninista: dar um passo para trás para poder dar dois para frente, o que, na prática, talvez signifique uns seis passos bem para trás. Certo é que a governadora quer modernizar o Estado. Não deixa de ser uma boa ideia. Claro que se trata de uma modernização conservadora. Ou, quem sabe, uma modernização conversadora. Na política, tudo é discurso. Vamos aos fatos. Depois de se livrar da secretária Marisa Abreu, cujo estilo sargentão fez o governo passar uma longa temporada marcando passo, Yeda Crusius voltou à carga na educação com uma estratégia mais sutil. O novo secretário gosta de comer pela bordas.
Foi para a Assembléia Legislativa o novo plano de carreira do funcionalismo público estadual. E aí recomeçam os mistérios, os enigmas e as charadas. Até pouco tempo o governo gaúcho não queria pagar o piso nacional de R$ 950 para o magistério. Tanto não queria que recorreu ao STF, junto com mais quatro Estados, defendendo a inconstitucionalidade da medida. Estabeleceu-se uma guerra semântica pela qual o governo do Rio Grande do Sul e seus aliados sustentavam que piso não é salário inicial. Uau! A coisa é tão esdrúxula que a única comparação possível é de que a morte também não é o fim, mas o começo. Se bem que esta hipótese é mais fácil de sustentar. Pois o mesmo governo que não queria pagar R$ 950 agora quer pagar R$ 1500. Bem entendido, o piso continuaria não sendo salário inicial, aquele sobre o qual se acrescentam as vantagens da carreira. Ah, bom!
Em bom português, como compreendeu o CPERS, o governo não quer dar aumento salarial, mas um abono. Faz sentido. E faz toda a diferença. Como diria o grande filósofo Alceu, lá de Palomas, irmão do Maniqueu, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outras coisa, exceto quando duas coisas opostas acabam por formar excepcionalmente uma mesma coisa indefinível. Sacaram? Eu não. Não há dúvidas de que a nova proposta é mais sedutora, rentável e ardilosa. O governo aceita pagar mais para poder pagar menos. E embute o seu estimado plano de meta, um 14º salário a ser pago a quem render bem. A medida poderia ser aplicada inicialmente ao secretariado do governo. Será que alguém levaria o prêmio do ano? Até agora, mais de 20 secretários foram reprovados e desembarcados sumariamente do governo.
Não sei. Nunca sei. Tem alguma coisa de estranho nessa súbita generosidade oficial. Antes, não havia dinheiro para coisa alguma. Agora, num passe de mágica, apareceu uma quantia considerável. É óbvio que nessa generosidade há também um evidente espírito de economia. A guerra de mídia já começou. Afinal, a campanha eleitoral já foi deflagrada. Lá vamos nós. Só resta conseguir separar o saco das bondades do saco das maldades. Os dados estão lançados. Salve-se quem puder.