Juremir Machado da Silva

Yes, nos temos food truck

Desde os 7 a 1 que o Brasil tomou da Alemanha, eu persigo os sinais de mudança radical em nossa cultura. Sou adepto da teoria do tranco. Ninguém muda, quando se trata de algo profundamente enraizado, sem tomar porrada. É por isso que defendo a educação no trânsito pela multa. Isso para os motoristas que já estão em atividade. Paras as novas gerações, aquelas que ainda não botaram a mão no volante, a conscientização poderá funcionar. Quais são os sintomas de que evoluímos depois da humilhação diante dos alemães?

Vou tentar explicar. As grandes evoluções começam pela linguagem. As mutações dignas desse nome são civilizacionais. No passado, usávamos o termo liquidação. Hoje, mais avançados, adotamos “sale” e “off”. Se tivéssemos dado mais alguns passos nessa direção antes da Copa do Mundo, não teríamos levado 7 da Alemanha, que nem jogou tanto assim, mas se aproveitou de nossa incapacidade de estar em sintonia com o mundo globalizado. Depois desse momento trágico, tentei identificar a mudança observando o esquema tático dos times brasileiros. Nada aconteceu. Compreendi que isso virá depois. Fui buscar os elementos indicativos de uma revolução em outro lugar. Já estava desanimado, acreditando que tudo continuava igual, quando, vendo televisão, escutei uma expressão que me iluminou a mente.

Carinho de cachorro-quente agora é “food truck”. Van de cachorro-quente virou “food truck”. Ouvi isso em telenovela, telejornal e programa de rádio. Eu já vivia impressionado com a transformação de entrega em casa em “delivery”. Fiquei entusiasmado quando escutei na rua um cara falar do seu “food truck de hot-dog”. Era um jovem executivo que pretendia posicionar o seu ““food truck de hot-dog” no show do “Foo Fighters”. Ele tinha até um “business plan” e, para garantir um lugar privilegiado, havia participado de uma “conference call” com “players” do setor. Ao seu interlocutor, ele advertiu que o importante é nunca perder o “deadline” de inscrição, aproveitar o “job” para “fazer networking” (rede de contatos é tudo, enfatizou) e, depois da sessão de trabalho, explorar o “feedback”.

Agora vai, pensei. Demos o salto para o futuro. Espichei a orelha. O homem estava dando uma aula sem cobrar. Explicou ao seu assistente que as boas ideias dependem de um “brainstorming”, que nada vai adiante sem um bom “briefing” e que, quando não se tem certeza de como avançar, o melhor é ter um “coach”. Babei. O vendedor de cachorro-quente (sou lento nas adaptações), explicou que não se pode estourar o “budget”, que é importante ter um “target” definido a alcançar e que qualquer “gap” deve ser observado atenntamente para que as lacunas existentes não se transformem em obstáculos intransponíveis. Quase pedi um autógrafo. Tratei de me comportar.

Dia sem uniforme na escola é “casual days”. Dei o fora. No caminho de casa, contei oito pontos de “food truck”. Deve ser um bom “job”. Ia dizer “trampo”, mas aí já é outro registro. Um amigo me disse que vai pegar o dinheiro do FGTS, antes que o STF suma com ele, para investir num setor que vai bombar de agora em diante.

– Um “food truck”– arrisquei.

– “Hole-in-one” – ele respondeu entre espantado e feliz.

Na mosca.