Stefan Zweig foi um grande escritor. Um dos maiores da sua época. Viveu muito tempo no exílio por ser judeu. Suicidou-se, junto com a mulher, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1942. Estudei profundamente um dos seus mais controvertidos livros, Brasil, país do futuro, para minha tese de doutorado, Anjos da perdição – futuro e presente na cultura brasileira. Não poderia, portanto, perder o filme de Maria Schrader, Stefan Zweig, adeus, Europa, em cartaz no momento.
Famoso por toda parte, instado constantemente, desde os primeiros anos de Hitler no poder, a se pronunciar de forma categórica sobre o nazismo, Zweig recusava-se a falar mal da Alemanha. Não queria generalizar. Preferia expressar-se através da sua arte. Não compreendia que a história exigia que passasse de escritor a intelectual. Pressionado por pedidos de ajuda de conhecidos e desconhecidos desesperados por um visto para viver na América, incomodava-se com a exposição. Queria paz para escrever. Podia ter?
O mundo vivido por Zweig se repete, de certo modo, agora para os refugiados de países como a Síria. Buscam abrigo, ajuda, vistos, acolhimento e palavras de apoio de intelectuais capazes de abrir portas, as portas dessa Europa que um dia precisou ser salva de seu monstro maior. A figura de Zweig é ambígua. Encantou-se com o Brasil do Estado Novo. Ficou deslumbrado com a tranquila convivência de pessoas de “raças” e de religiões diferentes. Não percebeu o racismo incrustado no cotidiano.
Passou ao largo do autoritarismo dominante.
Entrar no universo histórico de Zweig deixa um gosto amargo na boca: passa o tempo e o mundo não se emenda. Sempre inventa novas formas de exclusão e de sofrimento. A intolerância anda em alta. Há, de fato, um choque de civilizações, mas não é entre o Ocidente e o Oriente. O choque se dá entre uma concepção de mundo baseada em valores humanos e outra baseada em valores monetários. Uma Europa das pessoas versus uma Europa das finanças. Thomas Mann considerou o suicídio de Zweig uma deserção. Mais tarde, reconsiderou sua posição. Um suicídio é sempre mais do que uma escolha. Uma perda de controle. Jean Baudrillard falava em “assassinato de si”. Vitória do desespero.
Rever a tragédia pessoal de Stefan Zweig serve para tomar uma lição: há momento históricos em que a arte, a objetividade e a neutralidade devem ceder lugar à independência, à tomada de posição e ao comprometimento. Zweig deveria ter feito como Emile Zola e gritado: “Eu acuso”. O mesmo devem fazer os artistas de hoje toda vez que a Europa e os Estados Unidos fecham suas portas aos refugiados da Síria. Intelectual é aquele que pode errar por excesso, mas não por omissão. A guinada conservadora, capitaneada por Donald Trump, tem feito artistas de Hollywood assumirem a condição de intelectuais. No Brasil, Chico Buarque tem feito isso com maestria. A defesa da neutralidade é uma estratégia conservadora para silenciar vozes poderosas.
A arte termina quando começa a necessidade de disputa na esfera pública.