La Pelota

Vexame contra a Espanha expõe problemas da Argentina às vésperas da Copa

Sampaoli sofre para organizar a seleção argentina - Gabriel Bouys / AFP / CP

A Argentina sofreu uma de suas maiores goleadas nessa terça-feira ao levar 6 a 1 da Espanha em amistoso em Madri. O resultado iguala as piores derrotas da história da seleção – havia perdido por placar igual para Tchecoslováquia, na Copa do Mundo de 1958, e para a Bolívia, nas Eliminatórias em 2009. Mais do que o resultado vexatório, a partida escancara os problemas do time de Jorge Sampaoli a menos de três meses do Mundial da Rússia.


Claro que o desfalque de Lionel Messi tem um peso importante. Além do melhor do mundo, Aguero e Di María não estiveram à disposição para enfrentar os espanhóis. Mesmo assim, a Argentina mostrou uma fragilidade que uma seleção do seu tamanho não poderia demonstrar. Mas o vexame é apenas um retrato do que foi esse ciclo de Copa do Mundo em que a equipe teve três treinadores em menos de quatro anos.


Sampaoli, claro, tem responsabilidade pelos problemas. Assumiu a equipe a um ano da Copa do Mundo e caiu no seu colo, além da exigência de confirmar a classificação para a Rússia, a tarefa de renovar um elenco envelhecido e que carregava o peso das três finais perdidas. Antes dele, Tata Martino optou por manter a base de 2014 pensando em acabar com o jejum de títulos nas Copas Américas de 2015 e 2016. Não conseguiu e a Argentina passou dois anos sem trabalho algum de renovação. Depois, Bauza assumiu e caiu direto nas Eliminatórias. O ex-treinador de São Paulo e San Lorenzo deixou a seleção sem ter comandado nenhum amistoso, o que também prejudicou a possibilidade de trazer novos jogadores para a seleção.


Coube então a Sampaoli tentar uma renovação. O treinador que é tão elogiado por sua ousadia e capacidade inventiva tem exagerado na dose. Nessa última rodada de amistosos contra Itália e Espanha, cinco jogadores fizeram suas estreias como titular da seleção argentina: o goleiro Willy Caballero, os laterais Bustos e Tagliafico, e os meias Meza e Lanzini. Além disso, Rojo voltou a jogar após mais de um ano longe do selecionado por uma sequência de lesões. Mascherano, que até então só havia atuado como zagueiro com Sampaoli, jogou no meio-campo nessa terça-feira e se mostrou sem ritmo para acompanhar os móveis meias espanhóis.


Além disso, o esquema com três zagueiros, que parecia uma ideia consolidada por Sampaoli desde sua estreia, foi abandonado nesses últimos jogos. Montando o time com linha de quatro na defesa e com dois laterais ofensivos como Bustos e Tagliafico, a Argentina sofreu muito pelos lados do campo. Sem um sistema adequado de cobertura, expôs seus zagueiros que estiveram muitas vezes em inferioridade numérica diante do ataque espanhol.


Desentrosada e enfraquecida, a Argentina enfrentou uma Espanha completamente ajustada - com atletas que atuam juntos há anos e com uma forma de jogar consolidada – que passeou em Madri. Em sua entrevista coletiva após a goleada, Sampaoli afirmou que considerou que seu time fez um bom primeiro tempo, mas teve dificuldade para explicar os motivos para a goleada no segundo. O treinador colocou na questão mental o principal fator para o placar.


Sampaoli pode até ter razão de que o fator psicológico tenha afetado, principalmente após o terceiro gol espanhol. Mas me parece que o problema mental do time é uma consequência da falta de estrutura e organização tática. É aí que entra o trabalho do treinador. O problema é em como Sampaoli irá organizar essa equipe. Ele terá pouco mais de 15 dias com os jogadores antes da Copa do Mundo.


Acreditar que apenas a presença de Messi irá mudar esse cenário é ilusório. Messi pode resolver com sua individualidade na fase de grupos diante de Croácia, Islândia e Nigéria, talvez nas oitavas de final. Mas certamente apenas a individualidade do camisa 10 será insuficiente diante de desafios maiores como Alemanha, França, Brasil e Espanha. Para vencer essas forças será preciso um forte jogo coletivo, algo que a Argentina não encontrou nos últimos quatro anos.


Agenda da Argentina até a Copa do Mundo


A Argentina fará dois amistosos antes da estreia no Mundial, diante da Islândia, em 16 de junho. No dia 30 de maio, a seleção vai se despedir da torcida em Buenos Aires contra a Bolívia. O jogo está marcado para a Bombonera. Depois, antes de ir para a Rússia, vai enfrentar Israel, em Tel Aviv, em 9 de junho.


Sampaoli deve divulgar uma lista com 35 jogadores pré-selecionados para a Copa do Mundo no dia 14 de maio. A lista final com 23 só será anunciada em 4 de junho.