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"A Terra Prometida dos novos autores"



Por Luiz Gonzaga Lopes

Seguindo a reprodução dos trechos completos das entrevistas publicadas na edição número 1 da volta do Caderno de Sábado, o entrevistado é o escritor, ensaísta e tradutor Sergio Faraco. Nascido em Alegrete em 25 de julho de 1940, Faraco antes de estrear na literatura viveu na União Soviética, onde foi estudar Ciências Sociais no Instituto Internacional de Ciências Sociais de Moscou",  experiência que rendeu o livro de memórias "Lágrimas na Chuva - uma aventura na URSS" (L&PM, 2002).

A sua obra de estreia "Idolatria" (Cadernos do Extremo Sul, 1970), rendeu críticas positivas e comparações com nomes como Moacyr Scliar e Caio Fernando Abreu. Em crítica publicado no próprio Caderno de Sábado, em 6 de junho de 1970, Rita Canter avaliou que Faraco era “um autor gaúcho de primeira linha entre os novíssimos”

Faraco foi colaborador assíduo do Caderno de Sábado com artigos, seleção e avaliação de contos originais e também traduções do espanhol ao português de autores como Jorge Luis Borges (ainda quase inédito em traduções para o Brasil), no início dos anos 70, além de Ernesto Cardenal e Vicente Blasco Ibañez e do francês de Jacques Prévert e do japonês Yukio Mishima, da edição francesa de "Patriotismo".

Segue aqui a entrevista completa com Sergio Faraco sobre o Caderno de Sábado:

 

1. Qual foi a significação do Caderno de Sábado para o contexto literário e cultural do Estado nos anos 60 e 70?

Faraco - Inicialmente editado por Oswaldo Goidanich e depois, até o encerramento, por Paulo Fontoura Gastal, o Caderno de Sábado foi responsável pelo surgimento de toda uma geração de escritores. Aqueles que hoje estamos na faixa dos 60/70 anos começamos nossas carreiras publicando no Caderno de Sábado. Era a Terra Prometida dos novos autores. Sem o suplemento, nossa trajetória – a possível, no limite de nossos talentos – teria sido muito mais problemática. Em alguns casos, como no meu, talvez nem houvesse uma trajetória, pois eu não dispunha de outros espaços para começar.

 

2. Num tempo em que a obra de Jorge Luis Borges não tinha tradução no Brasil, o senhor traduziu o conto “A esfera de Pascal”, de Borges, e publicou no Caderno de Sábado. Do que mais o senhor lembra da vanguarda e ineditismo que propunha o Caderno?

Faraco - Traduzi para o Caderno diversos contos e ensaios de Borges. E também outros autores ainda não publicados no Brasil, como Ernesto Cardenal, Vicente Blasco Ibáñez, Emilia Pardo Bazán, Pio Baroja, além francês Jacques Prévert e do japonês Yukio Mishima – um trecho da edição francesa de sua novela “Patriotismo”. Se lembrarmos que essa produção era de uma única pessoa, e que dezenas de outras mantinham uma produção semelhante, podemos aquilatar a riqueza cultural que provinha do Caderno de Sábado. Escusado é frisar que essas vitórias derivavam, principalmente, da presença de P. F. Gastal à frente do suplemento. Era dele a chancela e o estímulo para que os colaboradores alçassem grandes vôos.

 

3. Quais os temas, reportagens e séries que mais lhe vêm à memória quando o Caderno de Sábado, publicado entre 1967 e 1981, é lembrado?

Faraco - Reportagens não eram comuns. O Caderno publicava contos, ensaios, poemas, material iconográfico – inclusive na capa –, e eventualmente séries sobre dados assuntos, que podiam ser literários, históricos ou relacionados com artes plásticas, cinema, filosofia etc. Era mais literário do que cultural, mas não rejeitava material que se impusesse pela qualidade. Uma das coisas que lembro com carinho é a coluna semanal que assinei durante alguns anos, chamada “Lugar do conto”. Gastal me passava os originais que chegavam à redação, eu os lia e os criticava na coluna, identificando-os pelo título e pelas iniciais do autor, e anunciava os que seriam publicados.

 

4. E os escritores da época, como eles se inseriram no contexto do Caderno de Sábado?

Faraco - Todos publicávamos lá, e me recordo especialmente dos contistas: o Scliar (Moacyr), o Noll (João Gilberto), o Schlee (Aldyr), o Caio (Abreu), o Carlinhos Carvalho, o Arnaldo Campos, a Tânia (Faillace), embora esta já fosse autora de livros pela Editora Globo. Houve um ano em que o suplemento fez uma verdadeira recensão dos poetas gaúchos: a cada sábado abordava a obra de um deles, com entrevista, poemas e fotos. A publicação de obras literárias tinha um importante efeito para o autor: ele passava a ter de seu texto uma visão compartilhada, e essa circunstância lhe aguçava o senso crítico. Era um recurso para melhorar. Hoje temos a Internet, as pessoas publicam o que querem, mas, obviamente, faltam critérios.

 

5. Com as mudanças sofridas pelo jornalismo cultural, que se segmentou e fragmentou, qual é o espaço e as demandas que um novo Caderno de Sábado poderia atingir ou cobrir?

Faraco - Não tenho condições de responder, sou um escritor e o Caderno de Sábado será um suplemento de jornal, feito por jornalistas, eles saberão lhe dar um alto e imprescindível sentido. Contudo, a mim me agradaria ver o Caderno de Sábado publicando contos, poemas, crônicas, ensaios, teatro, isto é, que fosse um suplemento basicamente literário, mas com abertura para outras áreas culturais. Ora, percebo que ainda estou falando do velho Caderno. Não é uma opinião, portanto, é só uma nostalgia.