A umbiguidade em uma poeta
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A umbiguidade em uma poeta

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Poeta carioca Maria Rezende lança Carne do Umbigo com autógrafos e recital nesta quarta-feira, 19, em nova edição da FestiPoa Literária Revisitada

Manoel de Barros partiu para voar fora da asa no dia 13 de novembro. Antes, definiu a poesia como nenhum outro poderia aprisioná-la na gaiola do mundo: "No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito: Poesia é quando a tarde está competente para dálias. / É quando / Ao lado de um pardal o dia dorme antes. / Quando o homem faz sua primeira lagartixa. / É quando um trevo assume a noite / E um sapo engole as auroras." Instado a falar sobre a poeta carioca Maria Rezende, o poeta da vanguarda primitiva teceu a seguinte consideração: "É poesia substantiva mesmo. A mulher inteira dentro das palavras. Poesia é fenômeno de linguagem do que de idéias. Isso você sabe. Sendo assim, você é poeta". Ele falava de "Substantivo Feminino", livro de estreia da poeta em 2003.

Agora a poeta nos eviscera, se deixa nua, mostra a sua umbiguidade - neologismo necessário para falar da idade de mostra o umbilical e o ambíguo em sua persona poética - e nos deixa substantivo-adjetivados como seus receptores poéticos deste Carne do Umbigo, seu terceiro livro, que tem sessão de autógrafos nesta quarta, 19, em nova edição da FestiPoa Literária Revisitada, às 20h, na Casa de Teatro de Porto Alegre (Rua Garibaldi, 853). Antes da sessão de autógrafos haverá recital com a poeta mais a participação de Adriana Deffenti, Dani Rauen, Deborah Finocchiaro, Everton Behenck e Germana Zanettini.

 

Aos 36 anos, onze deles de vida literária, Maria se reconhece e nos apresenta o umbigo de mudança e revolução, como no poema que dá título ao livro "Carne do Umbigo":

 



"Eclipses em escorpião / mudança / revolução

Eu estou trocando de pele / e isto não é uma metáfora...

...Eu sou de outra galáxia / sou invenção de passarinhos / eu não existo exatamente / eu estou de onda com a sua cara

Eu sou exuberante / eu sou exagerada / sou a morena peituda / com quem você sempre sonhou

Sou uma célula tronco / carne do umbigo / sou minha própria cura / drama discreto / lua em Leã0..."

 

Os amores e as perdas são expressos sempre que aguilhoam, ferem ou viram sentimentos recompostos qual um camaleão teimoso. No poema "Meu Norte" vemos a flama:

"O amor me deu um susto / o amor me deu um tapa / um soco doce / um sopro na asa / o amor me encheu de porrada...

... Me deixou em carne viva / me pôs de cama / mudou meu rumo / me deu um norte / roubou meu chão

O amor me botou no colo / deu plural pros verbos / curou minha tosse / me encheu de sede / me tirou das ruas / o amor me deu a mão."

 

Olhar pulsante, ambíguo, recheado de vivacidade poética, melancolia e sutura, sutileza e reflexão, desalinho e esperança. Intensidade é a descoberta em Maria Rezende. Depois Substantivo Feminino (2003) e Bendita Palavra (2008), que foram lançados acompanhados de cds em que ela diz os poemas, agora é a sua umbiguidade, a idade de mergulhar no umbigo e fazer a sua antropofagia verbal, versada e lírica. Na divulgação do livro, dizem que Maria Rezende capta um inconsciente coletivo pulsante do feminino. "Pulso Aberto" é inspirado nas Mulheres, de Eduardo Galeano, e versifica a peleia histórica da fêmea:

 

"Somos as que evitam o desastre / as que inventam a vida / as que adiam o fim / mulher / multidão."

 

Mas também há a necessidade de sutilezas e um laivo de aforismo para finalizar o poema "Voo Cego":

 

"O risco habita o coração do amor"

 

Há a genética, a ancestralidade de abertura de um filme, fadada aos versos de "DNA", homenagem da filial à matriz, dedicado à mãe Mariza Leão:

"Leão no mapa / na cabeceira / na certidão de nascimento

No toque entre os dedos / no branco precoce dos cabelos

Em fitas e fitas / de ácido desoxirribonucleico

O leão da Metro me deu o peito"

Maria Rezende é sua própria cura, a sua célula-tronco, o seu próprio mergulho. O amor próprio mais cotidiano, a poesia autoficcional por inteiro, do umbigo para o mundo, do ego para o id e vice-versa. O simples e o convexo, a reflexão e o complexo. Todas as Marias em uma só.

 

Sobre a autora

Maria Rezende é poeta, atriz e montadora de cinema e televisão. Aprendeu a dizer poemas aos 18 anos com a poeta e atriz Elisa Lucinda, e antes de começar a escrever seus próprios poemas participou de recitais da obra de grandes poetas de língua portuguesa, recebendo elogios de nomes como Manoel de Barros e José Saramago. Em 2003 lançou seu primeiro livro, Substantivo Feminino, e de lá para cá se apresentou com sua poesia por todo o Brasil e também em Portugal. Em 2008 publicou Bendita Palavra, e seis anos depois lança Carne do Umbigo, em que força e delicadeza se unem de forma surpreendente.

 

FestiPoa Literária Revisitada

Lançamento de Carne de umbigo (56 páginas, R$ 30,00), de Maria Rezende com sessão de autógrafos e recital com a poeta. Participações de Adriana Deffenti, Dani Rauen, Deborah Finocchiaro, Everton Behenck e Germana Zanettini.

Dia 19/11, às 20h, Casa de Teatro de Porto Alegre - Rua Garibaldi, 853

Entrada franca