Livros A+ - A crônica Musas de Ferro tem um início tão arrebatador quanto de identificação direta: “Eu já quis ser menino de rua só para nadar sem roupa entre as sereias de ferro da Osório”. Explique para os não curitibanos esta crônica, desde o local, o fato que a inspirou, o simbolismo da cena e do seu desenrolar.
Pellanda - Há uma ótima frase do Dalton Trevisan que pode explicar isso por mim: “O repuxo rococó da Praça Osório é o mar, o grande mar de Curitiba”. Sim, é o nosso marzinho, impossível fugir por ali, se lançar ao mundo, cair fora. Mas é possível, ironicamente, se afogar nele. Quando começo a crônica com a frase que você citou, estou na verdade me referindo a algo que praticamente todo curitibano habitante ou visitante do Centro já sentiu: num de nossos poucos dias de sol e calor, a vontade de tirar a roupa e se atirar naquele chafariz sujo, no meio da tarde. E é um desejo sempre reprimido, há gerações. Já os meninos de rua estão sempre lá, nus, rindo, saltando, dando seus mortais, sem medo ou vergonha. Imagine: há quase 40 anos vejo meninos de rua mergulhando naquele repuxo, entre as sereias. Onde estarão esses meninos hoje? Quantos sobreviveram?
Livros A+ - Quais são as principais ferramentas de um cronista e qual a tua crônica mais dileta de Asa de Sereia?
Pellanda - Não tenho uma crônica favorita. Acho que, se tivesse e tentasse explicá-la, acabaria atrapalhando a leitura do livro como um todo. Prefiro gostar do cruzamento entre todas elas. Quanto às ferramentas de um cronista, acredito que uma já basta: a própria vida. E é o que basta a qualquer pessoa, e me faz lembrar um grande ensaio do Leminski, que li ainda adolescente. Ele dizia que uma cidade não se lê com os olhos ou com o corpo, enquanto caminhamos por ela. Uma cidade se lê com a vida. Para mim, ler, andar e viver são movimentos espelhados.
Livros A+ - Como anda a crônica no Brasil? Continuamos sendo filhos de Nelson Rodrigues, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos ou há um caminho próprio, criativo, sintonizado realmente com o cotidiano e com a vida minúscula que merece ser retratada?
Pellanda - Meus três cronistas favoritos, os três que me formaram, foram esses. Ótimos pais, não reclamo deles, não. E se ainda forem eles os nossos pais, estaremos muito bem. Afinal, um pai pode ter cem filhos e nenhum filho igual ao outro, e nenhum filho que tenha a sua cara ou os seus modos, ou que lhe siga os caminhos, os desejos, as obsessões. O bom pai nos libera dos laços de sangue, da dívida com a ancestralidade e o passado. O bom pai nos ensina a liberdade, que é o oxigênio de qualquer literatura. E a crônica de hoje tem cultores de talento, originais e livres, para todos os gostos, cada um na sua: Verissimo, Humberto Werneck, Ivan Angelo, Antonio Prata, Xico Sá, Carpinejar, Victor da Rosa, para ficar só em alguns dos que se dedicam especialmente ao gênero. E temos tantos mais: Ignácio de Loyola Brandão, Mariana Ianelli, Eliane Brum, Marcia Tiburi, Cristovão Tezza, Milton Hatoum, J. P. Cuenca, Luiz Ruffato, Marcelo Moutinho, Carol Bensimon, José Castello, Ronaldo Correia de Brito etc. Escolha os seus.
