Livros A+

As outras praias do fantástico Gustavo Nielsen



 

Por Luiz Gonzaga Lopes

Bater um papo com o arquiteto, artista plástico, escritor, blogueiro e agora curador argentino de Buenos Aires, Gustavo Nielsen, 51 anos, é ter temas ilimitados, como aquelas propagandas de telefonia celular. Imprevisível e criativo como o seu próprio blogue Milanesa con Papas, Nielsen, incrivelmente, só tem uma obra sua traduzida para o português, A Outra Praia (Dublinense), com tradução do escritor, advogado e amigo Henrique Schneider. No livro, a temática da fotografia e da literatura fantástica está presentes. O bonairense está sempre em outras praias. Todas fantásticas.

No espaço de um ano e uma semana, Nielsen está de volta à praia da Alfândega para a 59ª Feira do Livro de Porto Alegre. Desta vez, ele resolveu ser Mary Shelley ou John William Polidori, aceitou o desafio de Lord Byron em Genebra e, quase dois séculos depois, irá escrever um ou mais contos de mistério e terror numa noite, a deste sábado, junto com outros autores em residência literária na Biblioteca Pública Estadual, que irá resultar na edição de um livro pela Dublinense e uma editora argentina. Nielsen é um dos curadores do evento de literatura fantástica, suspense, terror, crime, mistério (ou como você queira nominar), chamado "Tu Frankenstein 2", junto com Duda Falcão e João Pedro Fleck.

O evento reúne neste sábado e domingo tem bate-papos, trocas de ideias, oficinas literárias, apresentação de “Contos de gelar o sangue” e sessões de autógrafos. Entre os escritores convidados estão os internacionais Francisco José Viegas (Portugal), Guadalupe Nettel (México), Alexis Aubenque (França), Sean Branney (USA) e Frederico Andahazi (Argentina), além dos nacionais Max Mallmann,  Gustavo Czester, Cristopher Kastensmidt, Rodrigo Rosp, Cesar Alcázar, Fernando Mantelli, Simone Saueressig e o cineasta Bráulio Tavares. O evento segue até este domingo, assim como a presença inebriante de Nielsen entre nós, bem como de Francisco José Viegas, Federico Andahazi, Max Mallmann, isto para falar só em alguns visitantes que conheço melhor a literatura.

Com vocês, o múltiplo, o fantástico (duplo sentido para a literatura e pessoa), leitor de Horacio Quiroga a Dalton Trevisan, admirador de Lina Bo Bardi a Alvaro Siza, curador do Tu Frankenstein 2, o amigo de Henrique Schneider, Max Mallmann e Adriana Lunardi, das feiras, os livros, dos prédios, do urbanismo, dos parques e praças, dos blogues, dos contos de terror, Gustavo Nielsen.

 

Correio do Povo  - Qual é a tua ligação com a literatura de suspense e terror?

Gustavo Nielsen - Quando eu tinha cinco anos, eu li os "Contos da floresta de Horacio Quiroga" e eu me senti tão bem que eu pedi os outros livros do autor que eu encontrei em meu exemplar de Losada. Os da selva eram para crianças, aqueles que vieram, para adultos. Minha irmã me deu no meu aniversário de seis anos. Meus pais não perceberam. Eu comecei com os "Contos de amor, loucura e morte" e eu não conseguia parar de ler horrores na minha vida. Eu amo isso. Lembro-me que deixei cair o livro das minhas mãos quando eu terminei "The Chicken Decapitated". Eu não podia acreditar que a santa da minha irmanita tinha me dado de presente essa truculência feroz. Eu ainda estou esperando para ter o mesmo sentimento cada vez que eu sento para ler.

 

CP - Como surgiu a ideia do Tu Frankenstein 2?

Nielsen - De uma bebedeira feliz na feira passada. Começamos ter ideias com Jussara Rodrigues (coordenadora de programação da Feira) e depois de um jantar muito amável que a Câmara do Livro ofereceu ao escritores convidados da Feira do Livro anterior. Saíram umas quantas coisas interessantes. Com Jussara nós prometemos que não ia ficar por ali. E ela levou a cabo com insistência e perseverança. Ao longo do ano foram e vieram e-mails. É lindo: me sinto um convidado em minha própria festa. Como estes antologistas que se agregan à antología, mas são invisíveis no prólogo. Tudo vai sair bem.

 

CP - Quais as novidades da tua literatura ou também da tua arquitetura?

Nielsen - Na minha literatura: um livro de histórias inéditas, quase a ponto de bala ("caramelo", na resposta original em espanhol). Na arquitetura: desde o Galpón Estúdio fizemos muitas coisas boas neste úlitmo ano. O melhor, talvez, seja o último Iguazú in Concierto. Vocês podem googlear, é um concerto de 700 crianças músicos de todo o mundo, que acontece todos os anos nas Cataratas do Iguaçu. Desenhamos e construímos o cenário e a cenograifa sobre este lugar paradisíaco.

 

CP  - Por que não temos mais obras de Gustavo Nielsen traduzidas para o português?

Nielsen - É isto que Nielsen também quer!

 



CP - O que tu podes nos dizer do que tu tens acompanhado da literatura e da arquitetura brasileira (note que a pergunta é sempre dupla, sobre a literatura e arquitetura)?

Nielsen - Li com muita atenção a Max Mallman, Henrique Schnneider, Adriana Lunardi, Dalton Trevisan. Eu amo as obras de Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha. Foi bom visitar, no ano passado, e por ocasião desta mesma feira, o edifício de Alvaro Siza em Porto Alegre: o museu de frente para o "mar" (Fundação Iberê Camargo, de frente para o rio Guaíba). Eu pretendo voltar a vê-lo, desta vez, como se visitara um velho amigo.

CP - Conte-nos um pouco como está a situação da Argentina nos dias de hoje. No nosso último papo, tu disseste que nos países da América Latina os governantes tinham a cara do país. Cristina Fernandez continua com esta cara e mão de ferro de antes com a direita?

Nielsen - O de Cristina Fernandez segue sendo um grande governo, apesar do que dizem as grandes corporações ou o FMI. Acaba de sair a Lei de Mídia (Ley de Medios), um prêmio para celebrar os 30 anos de democracia. Parecia impossível, mas saiu. E as conquistas a nível social são gigantes, para um país que sempre tendeu para a direita. Eu amo essa mulher, apesar de quem nem tudo que ela faça me convenha.

Links:

http://milanesaconpapas.blogspot.com.br/

http://www.feiradolivro-poa.com.br/