
Por Luiz Gonzaga Lopes
"Escrever um romance equivale a pintar com palavras, e ler um romance equivale a visualizar imagens por meio das palavras de outra pessoa"
Orhan Pamuk, em O Romancista Ingênuo e o Sentimental
Todos nós adoramos caubóis ou um bom duelo seja ele no Velho Oeste americano, bíblico, histórico, mitológico, em sangrentas guerras ou no pampa gaúcho, isto mesmo, no interior do Rio Grande do Sul e também no interior do coração, das vivências e da história de amor entre Cora e Julia. Este adorar o duelo pode ser na cena final do western spaghetti Era uma Vez no Oeste, de Sergio Leone, quando Harmonica (Charles Bronson) e Frank (Henry Fonda), ao som da trilha de Ennio Morricone, fazem um longo percurso até o dedo no gatilho ou um simples diálogo entre as duas protagonistas de Todos Nós Adorávamos Caubóis, de Carol Bensimon (Companhia das Letras), o terceiro livro da autora porto-alegrense de 31 anos, o seu segundo romance: "Isto não tem nada a ver com a gente, Cora" / "Claro que não. Nunca tem a ver com a gente. Nunca tem".
O romance é um mergulho no interior das personagens, que após três anos afastadas - Cora foi para Paris estudar moda e Julia para Montreal terminar jornalismo - resolvem fazer uma viagem de carro sem destino certo pelo interior do Rio Grande do Sul, que acaba virando uma espécie de duelo amoroso e de reminiscências pelo pampa gaúcho, o nosso Era uma Vez no Pampa ou western churrasco (que não será adequado caso você seja vegetariano). A ida para o pampa é descrita pela narradora Cora de forma precisa: "O caminho para o pampa era verde e azul, e vasto. Menos gente, mais ruínas". É exatamente nestas ruínas das histórias de Cora e Julia, do experimentar da bissexualidade de Cora e Julia em banheiros públicos e motéis, no quarto de Cora, que a história avança e nos faz descobrir como Cora quer reviver esta história e Julia hesita em assumir sua bissexualidade, pois deixou o namorado americano no Canadá, Eric Aslam, que é simbolizado na trama por um presente atípico, um bracelete navajo (olha o Era uma Vez no Oeste ou outro bangue-bangue passeando pela história).
Para falar deste romance que conduz o leitor a uma história de amor com a cara do século 21, da velocidade da informação, da multiculturalidade, das incertezas em choque com a ruínas dos séculos passados no Rio Grande do Sul, de lugares como Antônio Prado, Cambará do Sul, Minas do Camaquã, Pântano Grande e Bagé, é que fomos também às origens da escrita de Carol Bensimon, que, à maneira de Orhan Pamuk, começou a pintar com palavras e a deixar imagens precisas e intensas na alma dos seus leitores. "Tudo começou com a escrita de contos de forma aleatória no colégio João XXIII, no Ensino Fundamental. Na 8ª série, comecei a ler a coleção Vaga-Lume, da Ática, e depois passei a ler obras como O Apanhador no Campo de Centeio", do J.D. Salinger, e "A Revolução dos Bichos", de George Orwell", conta. Nesta época, Carol já estava transcendendo à sina de Machados e Alencares que acompanhou os estudantes durante muito tempo.
A publicidade entrou na vida de Carol de forma um pouco aleatória, com o livre pensar que seria uma profissão que estimularia a sua "criatividade", pelo lúdico que poderia haver nela. “A experiência de ficar uma semana na Martins + Andrade ainda estando no colégio, no 3º ano, acabou entrando nessa equação da "aleatoriedade’. Se eu não tivesse passado por isso, talvez tivesse escolhido outra coisa, como o jornalismo. Mas, naquele instante, me pareceu que era aquilo o que eu queria fazer”, lembra a autora que foi incluída no volume “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros”, da revista inglesa Granta.
.
Mas assim como a propaganda é a alma do negócio, este meio não a estimulou a escrever. “Trabalhar com publicidade me atrapalhava, me deixava tensa, era um problema na minha vida. Eu só percebi isso quando tirei férias e fui mochilar na França, em 2006 de onde voltei então decidida a largar a profissão e a me dedicar à literatura”, conta Carol, que depois foi morar em Paris entre 2008 e 2010. Durante o curso de Publicidade e Propaganda na Ufrgs, fez algumas cadeiras da Letras e já desenvolvia contos e crônicas, mas foi na oficina do Assis Brasil (Luiz Antônio), em 2003, que ela começou a aprimorar a sua técnica. Quando passou em 1º lugar no Mestrado em Escrita Criativa na PUCRS em 2007, o destino de publicar um livro parecia inevitável.

Em 2008, publicou "Pó de Parede" (Não Editora), com três contos longos: "A Caixa", "Falta Céu" e "Capitão Capivara". Na primeira história, a casa modernista, a Caixa, criada por Kowalski é o cenário para Alice reviver uma tragédia que marcou sua adolescência. No segundo conto, a construção do luxuoso condomínio Golden Banks mexe com a rotina das irmãs Lina e Titi. Na terceira história, a jovem escritora Clara trabalha em um hotel da serra gaúcha como um mascote/boneco de pelúcia, o Capitão Capivara, e conhece e mostra toda a sua idolatria pelo escritor de romances policiais Carlo Bueno, que está criando uma história que tem o hotel como cenário. A gênese ou a matéria-prima para as histórias é descrita pela própria Carol: "A casa que inspirou A Caixa eu via todo o dia na avenida Iguaçu, em Petrópolis, quando eu ia para a agência Matriz. Ficava imaginando como seria a família que morava ali e aí surgiu a história. O hotel do Capitão Capivara veio do fascínio que eu tinha pelos grandes hotéis. Filha única, eu viajei muito com os meus pais, o conto é inspirado no Laje de Pedra, em Canela".

Em 2009, Carol publicou "Sinuca Embaixo D´Água" (Companhia das Letras). O livro que trata de um personagem ausente, a jovem Antônia, que morre em um acidente de automóvel aos 20 anos, foi o trabalho final do Mestrado de Escrita Criativa da PUCRS, recebeu o incentivo da Bolsa de Estímulo à Criação Literária da Funarte, e foi acompanhado na PUCRS de um ensaio acadêmico "A Personagem Ausente: algumas direções para futuros estudos", publicado no livro "A Escrita Criativa: Pensar e Escrever Literatura" (Edipucrs, 2012), coordenado por Luiz Antônio de Assis Brasil e organizado pelas Camilas Doval e Gonzatto; e Gabriela Silva. No romance, cada capítulo é narrado por um dos personagens envolvidos, como Bernardo, o namorado; Camilo, o irmão, e Polaco, o dono do bar da sinuca que reunia a turma, entre outros esporádicos como Helena, Lucas e Santiago. Carol confessa que o bar foi inspirado no Timbuka, antigo point da zona sul de Porto Alegre, no bairro Assunção, que foi demolido em abril de 2008. "O livro partiu de uma certa delimitação de estrutura, os narradores seguiram sempre a mesma ordem. É um romance sobre uma personagem que não está mais lá. Sobre a personagem ausente, ensaiei uma teoria que acompanhou o trabalho final do mestrado. Durante o desenvolvimento do livro, não tive isto de ter a personagem pronta, tridimensional. A coisa foi se construindo, eu tomei alguns caminhos e excluí outros. O que eu posso dizer é que a personagem foi construída pelo que ela deixou nas vidas de quem ficou", revela.
Após passar dois anos em Paris, entre 2008 e 2010 e colaborar com crônicas para jornais e textos para o blog da Companhia das Letras, Carol publicou no segundo semestre de 2013, “Todos Nós Adorávamos Caubóis” aquele que foi descrito pela crítica como “uma viagem por paisagens interiores”, ‘faroeste gaúcho” ou “notas sobre um fracasso irresistível”. Acrescento a estes batismos, alguns surgidos pela minha observação: o próprio “Era uma vez no Pampa”, que batiza este texto/entrevista, e também “viagem ao centro da personagem”, “distâncias entre duas iguais”, “amores em trânsito” e “bissexualidade à flor da pele”. A road novel penetra na camada mais recôndita do leitor por um profundo senso de descrição de paisagens e situações, que é próprio de Carol, pelo seu incrível poder de síntese, de dizer coisas que seriam pesadas em uma só frase, como esta: “Paris era o cenário perfeito para uma história que não estava acontecendo”.

Com este livro, Carol arrebata o leitor e o conduz a uma viagem a um mundo possivelmente desconhecido, o do interior do Rio Grande do Sul; talvez desconhecido, como o da bissexualidade feminina; certamente desconhecido de um amor que clama por respostas, mas está guardado em algum lugar do passado e que agora tem numa trip por locais abandonados como Minas do Camaquã ou hotéis nem sempre tão frequentados, como o Cavalinho Branco, em São Francisco de Paula, uma chance de redenção ou simplesmente de emparelhar a noção de felicidade e de amor, que o jogo da vida nos propõe. Isto sem esquecer a trilha sonora que perpassa a história, que vai desde as músicas do disco Houses of the Holy, do Led Zeppelin; “Come as You Are, do Nirvana; Chet Baker, Willie Nelson, os Irmãos Bertussi e outras preciosidades da música, além das sempre agradáveis referências parisienses como as ruas Faubourg du Temple e La Huchette, o bar indie Pop In, catedral de Notre Dame, canal Saint-Martin. Para terminar este misto de resenha, entrevista e pequena biografia de Carol Bensimon, deixemos que a autora responda algumas poucas questões que este blog propôs em forma de palavras-chave:
watch?v=FHqGhTVGMqk
AMOR
"Eu fico me perguntando se esta é uma história de amor?" Estava conversando com o meu editor, André Conti, e chegamos a conclusão que se este livro tivesse sido escrito há 15 anos, ele seria rotulado como um romance gay. Hoje com o efeito do politicamente correto, a questão da sexualidade e das escolhas de cada um é bem mais respeitada e a questão da sexualidade é central neste livro.
“Minha preocupação era o encaixe das coisas. Tinha a vontade de relatar esta relação ambígua. Não existe tanta referência na literatura sobre o tema. Na vida, há um pouco mais. As coisas entre Cora e Julia nunca foram postas às claras. Como o livro é narrado por Clara, esta indefinição da relação incomoda, mas ela nunca confronta Julia, dizendo ‘o que é isto que a gente tem?’ “
VIAGEM
"A viagem pelo interior do Rio Grande do Sul funciona no livro como uma espécie de segunda chance, segue o modelo do que não foi dito. Trabalha com a ambiguidade. A Cora não tem problema com a sua sexualidade, mas a Julia tem. Este é um pouco o modelo de como as coisas funcionam na vida real da classe média, da menina que conquista a independência fora da sua cidade, vem para a Capital, como foi o caso da Julia, de Soledade para Porto Alegre e depois para Montreal".
CAUBÓIS
“As referências de caubóis do livro são o Era uma Vez no Oeste, o Hank Williams, o country, o Oeste americano. Tem muita coisa intuitiva na história. Quando vão te perguntando, descobrem várias chaves. Em Minas do Camaquã é o momento mais importante da história. A cidade é fantasma, sobreviveu da mineração, que compartilha a sensação de estar no Oeste americano, tem o Cine Rodeio, o lance das botas Doc Martens, que não são de caubóis, mas são botas. Este território era totalmente desconhecido para mim e para as personagens. Minha experiência fora do país fez eu reconsiderar a identidade geográfica e cultural, conhecendo o novo que deveria ser também meu. O livro só saiu depois que eu visitei estes lugares onde eu iria ambienta-lo”
BISSEXUALIDADE
“A diferença em relação ao livro de contos, Pó de Parede, é que naquele livro as histórias vinham do lugar, neste romance quem determina a narrativa é a personagem. No início ia se passar em Paris e se chamaria Faíscas, mas aí veio a ideia do interior do Rio Grande do Sul, desta coisa meio deserta, desconhecida até então e principalmente a ideia de que ela seria uma estudante de moda que voltava para reencontrar a sua melhor amiga e também o seu amor, então a ideia era que ela fosse bissexual.”