"No quesito tradução, o Brasil é terra de santo forte"
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"No quesito tradução, o Brasil é terra de santo forte"

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Escritor e tradutor José Francisco Botelho fala sobre o Dia da Tradução, sobre o ofício, Chaucer, o mito de Babel e grandes traduções da história

 

Por Luiz Gonzaga Lopes

 

Ainda em relação ao Dia Internacional da Tradução, comemorado no último dia 30 de setembro, um dos entrevistados foi José Francisco Botelho, tradutor dos "Contos da Cantuária" (The Canterburty Tales), de Geoffrey Chaucer (Penguin) do inglês médio para o português. Em matéria para o Caderno de Sábado sobre a efeméride, enviamos uma série de perguntas para Chico Botelho, indicado ao Jabuti deste ano de Tradução Inglês-Português por esta versão de Chaucer. O tradutor e imortal da Academia Brasileira de Letras, Ivan Junqueira, de obras de Baudelaire e T.S. Eliot, morto em julho deste ano, definiu como um milagre a atual versão de Chaucer para o português:

"Jamais passou por minha cabeça que se pudesse verter Chaucer para nosso idioma com tamanha fluência, elegância, concisão e inteligência métrico-rítmica. Vou mais longe: não se percebe que se trata de uma tradução, e apraz-me às vezes dizer, calcado naquele conceito coleridgiano da suspension of disbelief, que gosto mais de certas traduções do que dos originais, exatamente porque se trata de uma tradução, ou seja, a poesia ‘alheia’ que nos serve o ‘homo ludens’ a partir do que escreveu o ‘homo faber’.

José Francisco Botelho é jornalista e autor do livro de contos "A Árvore que Falava Aramaico" (Zouk), que foi finalista do prêmio Açorianos de Literatura de 2012. Reside atualmente em Paris.

As perguntas enviadas para o José Francisco Botelho foram as seguintes:

1 - O que há para se comemorar neste Dia Internacional da Tradução?2 - Quais as principais lutas dos tradutores na atualidade? 3 - Quais as dificuldades do ofício? 4 - Especificamente sobre os Contos da Cantuária, Ivan Junqueira o definiu como um "milagre" a tradução de Chaucer. O que facilitou este milagre no teu trabalho de transposição deste texto entre língua e entre épocas?5 - Qual o respeito que é necessário ao texto por parte de um tradutor?6 - O teu novo projeto de tradução, qual é o livro e quais as especificidades desta tradução?

Chico resolveu responder em texto corrido, o que muito me agradou, pois sou admirador do seu texto e do seu trabalho como tradutor. Aí vão as respostas na prosa precisa do tradutor, natural de Bagé/RS:

Bem, temos sempre a comemorar a excelente qualidade de nossos tradutores e tradutoras. Não vou citar nomes, porque não caberiam todos em tua matéria, e citar apenas alguns seria cometer injustiça com muitos. Mas, certamente, no quesito tradução, o Brasil é terra de santo forte.Fui muito marcado por certas traduções como “O Livro da Jangal” – “The Jungle Book”, traduzido pelo Monteiro Lobato; ainda tenho hoje a tradução do Lobato junto ao original do Kipling; para mim, são dois livros diferentes, ambos ótimos. E, claro, não posso deixar de citar a tradução dos poemas de Eliot por Ivan Junqueira: uma inspiração para todos os que se atrevem a traduzir poesia.Existe um desafio natural: o reconhecimento da tradução como uma atividade literária igual às outras. A tradução, quando bem feita, é um ato de criação literária, como escrever um conto ou romance original. O inglês Alexander Pope é um de meus poetas favoritos; e dentre suas obras, aquela de que mais gosto é sua Ilíada. Sim, pois a Ilíada traduzida por Pope é a Ilíada de Pope (embora não deixe de ser de Homero, e aí temos um dos mistérios que tornam esse assunto fascinante). Borges dedicou um famoso ensaio ao tema, e não quero repetir seus argumentos: mas o fato é que a tradução excelente é aquela que acrescenta algo de novo ao universo da literatura; ou seja, é uma obra à parte, derivada da obra original, sim, mas dotada também de um valor único, apenas seu. Podemos dizer que entre os muitos benefícios que um grande livro proporciona ao mundo, está a possibilidade de infinitas traduções, todas diferentes, mas com uma origem comum.Perguntaste sobre minha tradução do Chaucer. Tenho uma teoria estranha, que talvez esteja errada, mas vá lá: acho que temos mais liberdade de criação quando traduzimos poesia; e mais ainda quando traduzimos poesia métrica. Quando um tradutor decide manter a métrica e o ritmo de um poema, estabelece-se uma espécie de acordo tácito com seus hipotéticos leitores: para manter a forma, ele terá de sacrificar outras coisas; e para que esse sacrifício não resulte em um texto fraco, o tradutor terá de utilizar sua imaginação, seus recursos, sua voz, enfim. E acho que a liberdade – e talvez a necessidade – de criação aumenta ainda mais quando se traduz de uma língua antiga, como o grego clássico e o latim, ou uma língua como o inglês médio, de Chaucer. A distância temporal e cultural impõe a necessidade de criar.A respeito da tradução em geral, alguns pensamentos. O mito de Babel, com a sugestão da existência de uma língua original que antecedeu todas as outras, é emblemático para o ofício da tradução. A princípio, há duas formas de se encarar a tradução à luz desse mito. Podemos pensar que a tradução, ao colocar duas línguas em íntimo contato, almeja encontrar uma brecha, um lampejo ou um caminho de volta àquela primeira língua, anterior à babelização do mundo. Mas também podemos encarar a tradução pelo viés contrário: de certa forma, ela celebra a condição babélica do ser humano; pois, por meio da tradução, constatamos que existe em cada língua algo de particular, algo que não pode ser repetido, algo de infinitamente idiossincrático; cada língua, digamos, tem uma certa personalidade e nos coloca em contato com uma determinada faceta do universo ou, vá lá, da experiência humana no mundo. Existe também uma terceira forma de pensar, que é a minha: a tradução faz ambas as coisas ao mesmo tempo. Aponta para um substrato misterioso e unânime, uma reserva ancestral de compreensão e experiência que subjaz a todas as línguas; e ao mesmo tempo, sublinha e intensifica a riqueza e a variedade, a expressão peculiar e personalíssima de cada idioma. A tradução pega o que há de estranho e único em determinada língua e tenta recriar essa estranheza em outra; assim o estranho se torna familiar, e o familiar, estranho; nesse jogo de estranhamento e reconhecimento, as línguas se contaminam e se enriquecem mutuamente.Além desse encontro entre línguas, outros encontros ou choques ou combinações entram no encantamento da tradução: a personalidade do tradutor, a época em que a tradução ocorreu, a rede de relações que o ato de traduzir estabelece ao redor de si, como os círculos concêntricos gerados por uma pedra que se lança à água. Chegando às profundezas, a tradução perturba a superfície das coisas.  Por exemplo: no século XIX, Sir Richard Francis Burton – o mesmo que explorou a nascente do Nilo e traduziu As Mil e uma Noites e o Kama Sutra – traduziu para o inglês Os Lusíadas de Camões; e eis a dedicatória da obra: “Para Dom Pedro de Alcântara, imperador constitucional e eterno defensor do Brasil: mais ao homem que ao monarca, a versão de um poema tão caro ao coração de todos os brasileiros é ofertada pelo mais humilde servo de Sua Majestade Imperial”. Existe algo de fascinante no simples fato de que essa tradução exista, não é mesmo? Porque aí existe aquele tipo específico de excentricidade  que só a tradução pode oferecer.