Noite de sexo sem tesão
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Noite de sexo sem tesão

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Gabriela Wiener e Juliana Frank, uma noite sem tesão. Gabriela Wiener e Juliana Frank, uma noite sem tesão. Foto de Walter Craveiro / FLIP


A noite de sexta-feira na 14ª Festa Literária Internacional de Paraty prometia ser de sexo e grandes histórias sobre o tema, com duas autoras promissoras, a jornalista e escritora peruana Gabriela Wiener (de "Sexografias") e a autora paulistana que mora no Rio e em lugar nenhum, Juliana Frank (de "Uísque e Vergonha"). Mas foi a noite mais sem tesão da Flip. Não houve química, o mediador Daniel Benevides se viu meio perdido com o tagarelar de Juliana e as suas tentativas de elogiar Gabriela acabaram denotando algumas opiniões um pouco machistas e conservadoras. O público saiu de cabeça baixa, contrariado e arrependido, mas lotou a fila de autógrafos de Gabriela e deixou Juliana com uma dúzia de autógrafos. O curador Paulo Werneck no início da mesa agradeceu a todos que deixaram de fazer sexo em casa ou em suas pousadas e vieram para a mesa. Ao final da mesa, eu não sei o que ele diria.

Mas vamos à mesa então. Após a leitura de trechos dos dois livros, Gabriela, 41 anos - que coloca a primeira pessoa, seu corpo e suas palavras nas reportagens e imersões pelo mundo do sexo e de outras experiências - falou da precariedade da educação sexual no Peru. "Minha mãe falava do tema biologicamente. Era só pênis e vagina. Nas festas da escola, quando eu ficava com um, dois ou três, as minhas amigas não falavam comigo. Fui buscar na vida e no pornô. Minhas histórias são o processo, a investigação de coisas que acabo vivendo nas reportagens, com a curiosidade", introduziu a sua fala.

Juliana estava se remexendo toda, pois não queria ser fotografada. Botava o espelhinho na frente da cara e se virava de costas, escondia o rosto com o cabelo. Tentou falar de si e de sua obra, louca e verborrágica. "Eu escrevo porque não sei falar. Todas as minhas personagens são a mesma, sempre são sexualizadas, góticas (a sexualidade é gótica) e pretendo matá-las. Escrever é um ato de vaidade, ubiquidade. Nossa geração está escrevendo histórias de libertação". Gabriela seguiu falando que começou como jornalista cultural e depois passou a textos mais pessoais, escrevendo sobre qualquer coisa, menstruação, pessoas tatuadas, histórias de transgêneros. "Me etiquetaram de jornalismo gonzo, o que só pode ser atribuído a Hunter S. Thompson. Queria falar da sexualidade na contramão. Não de atores ejaculando nas mulheres, mas nos sapatos, queria os pornôs possíveis, a sexualidade que realmente existe, um ângulo inesperado dos personagens", relatou. Juliana arrematou que escreveu histórias de amor e sexo vividas em Buenos Aires, por procurar Julio Cortázar e Lautréamont nos homens bonairenses.

A babada histórica do mediador Daniel Benevides começou quando ele foi introduzir o tema do poliamor com Gabriela e disse que chamam a peruana de devassa. Por um erro de tradução, ela entendeu como tarada (que também quer dizer idiota em espanhol), mas a autora ficou contrariada, pois nunca a chamaram assim. Ao tentar consertar, Benevides disse que quis dizer que ela conseguia viver o poliamor nas reportagens ou nas ruas e depois voltar para casa para uma família, pois é casada com poeta e jornalista Jaime Rodriguez. "Mas eu volto para casa, para meu filho para dizer que este mundo agora é outro. Vamos seguir com tema. O poliamor é vivido por pessoas livres, mas zelosas. Cuidar do outro, dos meus amantes e amores, é o mais importante para mim", destacou.

Juliana Frank seguiu dando o seu showzinho meio sem graça, com algumas pérolas como: "as mulheres precisam da mirada de Proust, precisam ser Proustitutas", enquanto Gabriela também continuou exalando simpatia e uma sintonia com este mundo em constante transformação. Falou do livro "Nueve Lunas" e de sua gravidez. "Alguém me falou que gravidez, maternidade, não seria um tema literário. É um tema muito literário". Ela abordou também a venda de óvulo que fez em Madri, onde vive atualmente, que pagou uma parcela do seu Mestrado. "Pelo esperma, eles pagam no máximo 30, 50 euros. Um óvulo custa mil euros. Num destes locais, me disseram que não tinham demanda de óvulos de ameríndios. Aquele ser já estava sendo discriminado na Europa antes de nascer", finalizou.

Na fila de autógrafos, Juliana ficou durante uns 15 minutos, com meia dúzia de autógrafos e Gabriela autografou por mais de uma hora. Fui conversar com Gabriela sobre um dos textos de "Sexografias", "Viagem com Ayahuasca". Falei a ela que tinha tido experiências com o chá num grupo de Daime de Viamão (RS) e que nunca tinha escrito sobre isto. "A experiência com o chá é bem radical, muda a vida. Posso te dizer que a planta vai sempre te acompanhar", disse enquanto autografa o livro para mim e desenhava uma mulher e fazia a dedicatória com a frase "sexo com amor".