Livros A+

O amor que se expressa pelo mundo


Por Luiz Gonzaga Lopes


Os amores em situações multiculturais, em expressos pelo mundo, em cidades tão díspares como São Petersburgo, Praga, Sidney, Buenos Aires, Lisboa e Dublin. A coleção “Amores Expressos” proposta a escritores em 2007 pelo produtor  Rodrigo Teixeira, da Companhia das Letras, foi um daqueles desafios interessantes de se fazer, uma residência de alguns meses em 17 cidades pelo mundo, que resultasse em livro, blog e vídeo. Onze livros ficaram prontos, um deles Como Desaparecer Completamente, de André Leones, foi rejeitado pela editora proponente do projeto e publicado pela Rocco.


Para falar dos livros com amores que se passam respectivamente em Buenos Aires, Sidney e Dublin, Daniel Galera (“Cordilheira”, Paulo Scott (“Ithaca Road”) e Daniel Pellizzari (“Digam a Satã Que o Recado foi Entendido”),  sob mediação do escritor e músico Pedro Gonzaga, estarão em mesa nesta quinta-feira, 14 de novembro, às 19h, na Sala Leste do Santander Cultural (Sete de Setembro, 1028), dentro da programação da 59ª Feira do Livro de Porto Alegre. Recentemente, outro gaúcho publicou a sua história, Amilcar Bettega Barbosa, “Barreira”, que se passa em Istambul, mas não estará neste debate.

Sobre o projeto, as cidades, os personagens, a ambientação e as próprias carreiras, o blog Livros A+ convidou para uma entrevista relâmpago (rápida nas perguntas e no tempo de resposta por e-mail, enviada e respondida em menos de duas horas) o paulista, mas com alma de gaúcho (pois aqui desenvolveu grande parte da sua carreira como a Livros do Mal e o primeiro grande sucesso Até o Dia em que o Cão Morreu), Daniel Galera e o porto-alegrense Paulo Scott, o cara do Ainda Orangotangos e de muitos livros bacanas que se seguiram. Daniel Pellizzari também foi convidado para o relâmpago, mas checou e-mails mais tarde. Foi reconvidado para nova entrevista. Confira o papo com Galera e Scott.

 

Livros A+ - Queria que vocês nos contassem um pouco sobre a experiência de imersão em uma cidade para extrair amores em situações do cotidiano ou não?.

Daniel Galera - Quando me convidaram para o projeto e disseram que a minha cidade seria Buenos Aires, eu já tinha um esboço de romance na cabeça, e decidi tentar encaixá-lo na capital argentina. A trama versava sobre uma escritora brasileira às voltas com uma curiosa seita de escritores e com seu desejo de ser mãe, e previa alguns jogos metaficcionais. Durante um mês, procurei conhecer e experimentar a cidade em ritmo natural, pesquisando ocasionalmente locações e situações que serviriam à minha história. Encontrei cenário fértil na tradição literária e na cena cultural alternativa da cidade, em bares e cafés, em cantinhos curiosos que encontrava nas minhas caminhadas. Uma viagem pessoal a Ushuaia também me deu novas ideias e foi decisiva para os rumos da história.

Paulo Scott - Depois de um tempo trabalhando no romance (levei quatro anos tentando escrevê-lo), percebi que naqueles 30 dias que passei em Sydney fiquei rodando a esmo pela cidade tentando encontrar nela o que só fosse possível de acontecer lá. Nesse sentido, fiz da cidade uma personagem. Na verdade, a grande antagonista (numa relação de amor e ódio) de Narelle, a protagonista da história.



 

 

 

 

 

Livros A+ - Agora é a hora da pergunta sobre o personagem ou personagens que conduzem a história de cada um.

Scott - Narelle é uma mestiça de índio maori com inglês, uma mulher do seu tempo, inteligente, emancipada, mas perdida num contexto que dá aos adultos tantas oportunidades e chances de relacionamentos e entretenimentos e que os torna, por vezes, pessoas emocionalmente imaturas, crianças perdidas num grande parque de diversões. O arco narrativo gira exclusivamente em torno dela; essa, na minha opinião, é a contribuição narrativa relevante dessa história - mas é impossível de afirmar de forma absoluta, porque, no fim das contas, essa é uma decisão do leitor.

Galera - Anita é uma jovem autora brasileira, órfã, moderna, com uma visão de mundo bem cínica. De uma hora para outra, ela começa a rejeitar seu único e bem-sucedido romance publicado e se vê dominada por um instinto materno que beira a obsessão. Ela rompe o namoro e vai passar um tempo na Argentina para divulgar seu livro. Lá, porém, se envolve com um grupo de personagens misteriosos que cultua a literatura e busca romper as separações entre vida e ficção. Anita é de certa forma uma anti-heroína que investe contra certos ideais femininos e literários da sua geração. Mas suas convicções e ilusões vão sendo problematizadas e complicadas à medida que a história avança.

 

Livros A+ - Qual a opinião sobre o projeto Amores Expressos e como está a carreira de cada um.

Scott - Só mais um projeto envolvendo escritores. Tento não lidar com ideia de carreira. Prefiro pensar que vivo de projetos, ou seja, um projeto de cada vez, um livro de cada vez. Tu termina um e depois passa ao próximo, tentando fazer melhor, falhar melhor, como já disse Samuel Beckett.

Galera - Acho que o projeto rendeu vários livros interessantes e se justificou. "Cordilheira" foi um livro que dividiu opiniões, e eu gosto bastante dele, é uma obra peculiar dentro da minha carreira. Recentemente publiquei o romance "Barba ensopada de sangue", que teve ótima recepção aqui no Brasil e está sendo traduzido em mais de dez países.