Quando eu soube da volta do Caderno de Sábado, do nome, do espírito da publicação, bem mais modesto em termos de tamanho e projeção, fiquei num estado de ansiedade e taquicardia com a difícil missão de tentar reeditar um pouco da sua verve e missão para discutir temas da literatura, da história, da cultura em geral. Organizei a agenda de telefones e e-mails para os possíveis entrevistados numa matéria especial sobre a sua história e um dos nomes que me veio à baila foi o do teólogo, poeta, crítico de arte e ensaísta, natural de Santa Maria, Armindo Trevisan, autor de livros como "Vamos Aprender Poesia (AGE, 2008) e "Novos Ensaios" (Pradense, 2013).

Deixei uma mensagem para Trevisan, via internet, e bastaram algumas horas para encontrá-lo num dos melhores sebos da Capital, a livraria Nova Roma, e ser convidado para um café para travar uma das conversas mais agradáveis que tive na vida. Como um arauto, dei-lhe a boa nova da volta do suplemento editado entre 1967 e 1981, fato que ele comemorou com um entusiasmo. Conversamos sobre literatura, catolicismo, poesia, medievalismo). Com sua bondade e interesse, ele perguntou sobre meu romance "Amor Sobre Tela", publicado de forma independente (Armazém Digital, 2007) e eu disse que lhe enviaria as perguntas sobre o Caderno de Sábado. Trevisan colaborou com o suplemento no final dos anos 1960 e nos 70 com poemas como "Vênus" e "O Laço" e artigos, um deles sobre Guimarães Rosa e outros como cartas abertas ao poeta Mario Quintana.
Algumas das respostas de Trevisan, que foi patrono da 47ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 2001, foram publicadas na matéria especial sobre a volta do Caderno e a entrevista na íntegra publicamos agora:
1 - Qual foi a significação do Caderno de Sábado para a intelectualidade gaúcha nos anos 60 e 70?
Trevisan - O Caderno de Sábado foi um veículo de dupla mão para nossa geração: trazia notícias e textos de autores de outras regiões e países, e dava escoamento aos nossos exercícios de candidatos a escritores. Naquela época, onde poderíamos encontrar um texto de apresentação e crítica sobre o Homem sem Qualidades de Musil? Quantos autores do Brasil chegaram até nós por meio desse suplemento! P.F.Gastal era um ecumênico, um homem aparentemente áspero, porém capaz de incentivar os jovens. O Caderno de Sábado chegou a ser uma espécie de "forum literário", sobretudo para leitores do interior.
2 - Quais foram as principais contribuições do senhor para o suplemento?
Trevisan - Contribuí principalmente com poemas. De quando em quando arriscava-me a traduzir poetas. Publicava também ensaios.
3 - Qual foi o primeiro texto que enviaste e como chegaste até o Paulo Fontoura Gastal e/ou o Oswaldo Goidanich?
Trevisan - Procurei o Gastal porque o Brasil Berutti, do Bric-à-Brac, mo sugeriu. O Berutti achava que meus poemas eram dignos de aparecer num Suplemento, e não numa coluna de curiosidades. Para dizer a verdade, no primeiro momento o Gastal me recebeu "friamente". Com o tempo tornamo-nos bons amigos.
4 - O senhor lembra de alguma história pitoresca sobre o caderno?
Trevisan - Lembro-me de uma história que, sem ser propriamente pitoresca, foi importante para mim. Um de meus poemas foi publicado no Caderno devido à intervenção direta de Mario Quintana. Foi o poema Vênus.
5 - Após o fim do Caderno de Sábado, em 1981, houve algum outro momento no jornalismo cultural que chegou a suprir a lacuna da sua falta?
Trevisan - Para mim o desaparecimento do Caderno de Sábado foi um golpe. Tive a impressão de que, com ele, naufragou um projeto cultural. Depois dele vieram outros suplementos, mas nenhum dos "substitutos" o substituiu verdadeiramente.
6 - Quais as demandas literárias e culturais que não são atendidas atualmente por cadernos de cultura e que o Caderno de Sábado poderia tornar a assumir como missão nestes dias atuais após a sua volta ter sido anunciada?
Trevisan - Estou atualmente perplexo! Não sei exatamente o que o público espera atualmente da literatura. Parece que o gosto literário foi substituído pelo "gosto do entretenimento". Continuo a pensar que o clássico exige um mínimo de esforço - além do prazer!. Erotismo, exotismo, acrobacias estilísticas. satisfazem durante algum tempo. As exigências da língua, porém, são maiores.Até mesmo um neurocientista, Pierre Changeux afirmou que os autores contemporâneos estão se tornando "abstratos", no sentido de que deixam de lado as emoções humanas mais profundas. Estas são inesgotáveis, e nunca cessam de interessar. Dizia Quintana que Shakespeare, para quem não o leu ainda, é o último bestseller...
7. Outras considerações sobre o suplemento.
Trevisan - Se o Caderno de Sábado volta à circulação, proponho-lhe que siga um velho lema da Bíblia: "O homem sábio tira do seu tesouro coisas novas e velhas".