O efeito Maria Valéria Rezende
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O efeito Maria Valéria Rezende

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Autora vencedora do Jabuti em 2015, que é freira e educadora popular, causou grande impacto nos dois dias que participou da Flip

 

Por Luiz Gonzaga Lopes

 

Uma freira de 74 anos, natural de Santos (SP) e radicada em João Pessoa (PB), que dá carne aos personagens a partir das suas vivências de educadora popular, socióloga ou de observações de situações aparentemente cotidianas, mas que carregam uma grande carga de humanidade. Maria Valéria Rezende causou um impacto enorme na 14ª Flip, dez anos depois da sua primeira e última aparição na Festa Literária, que foi em 2006. Ela participou de mesas e atividades no Espaço Itaú Cultural de Literatura, na quarta e na quinta. Autora vencedora do Prêmio Jabuti em 2009, na categoria Infantil (com No Risco do Caracol) e Juvenil em 2013, com "Ouro Dentro da Cabeça", Valéria chegou ao auge das premiações quando foi a vencedora do Livro do Ano de Ficção e da categoria Romance do Jabuti em 2015. com "Quarenta Dias", lançado pela Alfaguara.
Mas o maior prêmio literário que ela disse ter recebido foi quando o amigo Paulo Marcelo, do projeto Zé Peão, precisava de um livro para ser lido pelos operários da construção civil recém-alfabetizados que vinham do sertão para João Pessoa e o livro escolhido foi "O Voo da Guará Vermelha", pois os protagonistas eram pessoas como eles: Rosálio é um servente de pedreiro, que precisa aprender a ler os livros que guardou numa caixa de pau d´arco durante a vida, e ele conhece Irene, uma prostituta com Aids. "O Paulo comprou 250 exemplares do livro para o projeto e eles queriam que eu autografasse. Não tem prêmio literário maior nesta vida. Eu me emocionei com tudo isto, pois era a vida deles que estava no livro. Eu escrevo desta forma, algo que seja matéria da vida", destacou no fim da tarde desta quinta-feira no Espaço Itaú, na mesa da série Oceanos - Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa, com mediação dos curadores do prêmio, Selma Caetano e Manuel da Costa Pinto.

 

Maria Valéria também contou que a sua estreia na literatura em 2001 quase não aconteceu, um trajeto que tem um paralelo também com a homenageada da Flip, Ana Cristina César, que contou com o apoio de Caio Fernando Abreu para ser publicada. A autora santista tem o costume de dar histórias de presente. "Um dia eu tinha marcado de conversar com o Frei Betto e acabei levando uma destas histórias que eu fazia na hora e também ilustrava, fazia capa e tudo. O Frei Betto gostou da história e uns três meses depois eu recebi um pedido do Pascoal Soto, que estava na Editora Beca, de me mandar o livro todo, que ele adorou a história, que eu não poderia ser uma escritora iniciante. Ele me pediu para mandar todos os originais que eu já tinha. Aí descobri que era a história para o Betto. Assim publiquei "Vasto Mundo", cujo protagonista era o povo, cada capítulo girava em torno de um morador da Vila da Farinhada", explicou Valéria, que na infância e adolescência travou conversas com Pagu, Gabriel García-Marquez e Fidel Castro por causa da sua família que tinha muito envolvimento com a literatura, como o tio-bisavô, o poeta Vicente de Carvalho.

 

Apaixonada pela escrita, Maria Valéria também falou do seu livro "Quarenta Dias", da personagem Alice ter uma arapuca para se tornar avó profissional para a filha que vive em Porto Alegre e se refugiar nos sebos e conhecer muitos livros de literatura contemporânea como a própria autora. "Até alguns anos eu lia umas mil páginas por semana, mas agora com alguns problemas de visão eu diminuí um pouco, mas leio todos os jovens autores brasileiros da literatura contemporânea, assim como os clássicos. As epígrafes de Quarenta Dias são aqueles trechos de livros que eu destaco e outros que eu peguei de perfis de Facebook de alguns autores", ressaltou Valéria. Ela chegou a colocar 500 destas citações em um caderno que não o da capa da Barbie, da personagem Alice, e depois escolheu as epígrafes que vão de Samuel Beckett a Elvira Vigna.

 

A escritora também foi firme em seus posicionamentos políticos, dizendo que o "Primeiramente, Fora Temer" é uma tônica muito justa da Flip e de outros eventos culturais e que reúnem público, mas que precisamos nos preparar para o que vem depois. "A preocupação vai ser fazer as coisas de outra maneira. Reconstruir e não repetir os erros, botar a casa em ordem. E preciso bagunçar para poder botar em ordem". Sobre a pouca participação das mulheres e das negras na Flip, a autora de 74 anos proferiu uma fala firme na mesa "De Onde Escrevo", realizada quarta no Espaço Itaú: "Temos que amar e buscar conhecer o diferente e fazer com que ele participe de todos os eventos, principalmente os literários, artísticos, culturais. Eu nasci sobre o blecaute da Segunda Guerra Mundial, passei por décadas de ditadura militar. O momento é de dar a virada, exigir que as mulheres negras, as mulheres nordestinas, que as índias participem de tudo. A gente não tem tempo a perder, não podemos pedir educadamente para os moços loiros para participar. Temos que meter os peitos", enfatizou para aplausos efusivos da plateia.
O Espaço Itaú Cultural de Literatura segue com atividades até sábado à noite, encerrando às 20h, com um sarau com Sérgio Vaz, da Cooperifa. O Itaú Cultural transmite ao vivo a programação da Flip pelo www.itaucultural.org.br. A Flip segue até domingo, dia 3, no final da tarde. Mais pelo www.flip.org.br