Primeiro livro juvenil do autor, Eu é um Outro, será lançado neste sábado, 11h, no Baden
Peço perdão por incitar no título o resgate à forma antiga de qualquer escriba. Hermes Bernardi Jr. parece escrever com uma pena ou com uma
caneta bico de pena, tão afeito que é a artesania da literatura (ele é também excelente ilustrador). Não por acaso a asa de anjo com suas penas é a capa do livro "Eu é um Outro" (Edelbra), um pequeno empréstimo junto a Jean-Nicolas Arthur Rimbaud de uma carta a Paul Demeny, do autor de "Conchas" (Edelbra), livro vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura Infantil. É o primeiro livro juvenil, alguns chamam de infantojuvenil (a definição rende uma grande discussão). Pois a obra será lançada neste sábado, às 11h, no Baden Cafés Especiais (rua Jerônimo de Ornelas, 431).Será um evento para lá de prazeroso, asseguro. Primeiro porque Hermes é um dos grandes interlocutores, dos caras que discutem literatura sob todos os ângulos, desta Porto Alegre por vezes triste, mas nunca sem um bom debate de ideias. Segundo porque haverá bate-papo com Márcia Ivana de Lima e Silva, doutora em Teoria Literária pela PUCRS e professora do Instituto de Letras da Ufrgs. Márcia Ivana foi minha professora no curso de Especialização em Literatura Brasileira - Escrita Criativa da Ufrgs e desde a primeira troca de ideias já me identifiquei com a pessoa e leitora.
O livro mostra a maturidade de Hermes, um escritor e também ilustrador que avança com maestria na busca de uma nova sintaxe, que escreve como se conversasse com o leitor e como se metaforizasse alguns momentos. Eduardo está na sua sessão de terapia e conta ao terapeuta as suas desventuras, o seu amor por um igual, pelo amigo Manon, com quem discutem e leem poesia e também vão a jogos de futebol, torcendo por times adversários. No consultório do psicólogo, ele tenta materializar o abstrato, o que ele vai contar, buscando refúgio na obra de Wassily Kandinsky: "Manchas de cores quentes, fortes, contornos pretos. Abstrato. Não sei se gosto, mas não consigo desviar o olhar".
O relato é fragmentado. Hermes cresce com a palavra, narra fragmentadamente e brilhantemente e Eduardo consegue desenozar o delicado novelo das suas inseguranças em relação ao amor por outro menino, de forma desconexa, com identidade por vezes vacilante (há uma brincadeira do verbo vacilar com Wassily). Eduardo é agredido no banheiro de um estádio de futebol. Tem traumas e dúvidas. Mas a amizade ou um afeto maior por Manon pode ficar tatuada como um par de asas que Manon desenhou para Eduardo. "Qualquer coisa que me dá sempre é suficiente. Qualquer coisa, Eduardo? Claro, claro que eu aceito. Eu até aceito a lembrança de tudo que não foi dito e que ainda dói sob a cicatriz.".
Não falei ainda de outros papos que tive com Hermes, da magia que é o seu perfil no Facebook chamado Cidade Baixa em Trânsito, até porque são coisas que voltarão a este blog, como a nossa simpatia pelo Caderno Vermelho, de Paul Auster, disparado o meu escritor preferido entre os vivos (Hermes carrega o seu caderno vermelho pelos bares e cafés de Porto Alegre). Leiam o livro e compareçam ao Baden Cafés neste sábado para prestigiar um escritor no auge de sua maturidade, estreando com esta novela juvenil de grande sensibilidade.