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O Registo de uma Revolução

Por Sergius Gonzaga (*)

O Caderno de Sábado teve papel decisivo em um complexo movimento cultural surgido no Rio Grande do Sul, nos fins dos sessenta e que se estendeu até meados dos oitenta,exatamente no período em que o suplemento circulou, tornando-se a tradução mais rica, múltipla e abrangente deste fenômeno que se repetiu em outros estados da nação (como Minas Gerais, por exemplo), ainda que com menor impacto e extensão.

O contexto era desafiador: ditadura militar, censura e, ao mesmo  tempo,  crescimento ímpar, modernização forçada e uma homogeneização vertiginosa do  país, tanto no sentido político quanto no campo dos  valores existenciais e culturais. Uma nação nova se consolidava, autoritária, porém urbana, industrial, capitalista. Vivia-se sob a égide de um Estado centralizado ao limite e da cultura de mão única, via televisão.

O Rio Grande reagiu de forma contraditória a este processo, buscando de forma sinuosa uma identidade própria que pudesse se contrapor à ditadura e, de alguma maneira, à própria modernização em curso no país. A criação desta cultura de resistência deu-se por meio da literatura, do ensaio e da música popular, sobremodo a regional. As duas primeiras manifestações encontraram seu ponto irradiador no Caderno de Sábado, assim como a música foi chancelada por inúmeros festivais que brotaram no interior e por algumas emissoras de rádio da capital que passaram a rodar as novas canções urbanas que então surgiam.

Ciclos de debates e conferências (sempre culturais e nunca políticos, obviamente) começaram a ser organizados em torno de ações de um grupo de intelectuais do MDB, capitaneados por  André Forster, e por alguns professores isoladamente em suas faculdades. Nos idos de 70, Deonísio da Silva organizou cursos de férias na Fidene, em Ijuí, com milhares de participantes, discutindo literatura contemporânea e mesmo certos temas históricos candentes. O Instituto  Estadual do Livro – primeiro sob a condução de Ligia Averbuck e depois de Luis Antonio de Assis Brasil -  incentivou o lançamento de novos autores, criaram cadernos sobre os mesmos e inauguraram uma rede de visitas destas nascentes personalidades literárias aos colégios da capital e do interior.

Neste contexto, irrompeu no RS um formidável  conjunto de escritores, sobretudo ficcionistas: Josué Guimarães (de estreia tardia), Moacyr Scliar, Sergio Faraco, José C. Pozenato, Assis Brasil, Luis Fernando Verissimo, Deonísio da Silva, Tabajara Ruas, Laury Maciel, Charles Kiefer, Lya Luft, Tânia Faillace, Caio Fernando de Abreu e João Gilberto Noll, entre outros. Em todas as suas ficções (inclusive nas dos quatro últimos, mais introspectivos) a realidade sul-rio-grandense emerge, de forma nítida ou sutil. Escavar o passado histórico ou mesmo a alma interior era uma demonstração de insatisfação com a realidade, de rebeldia contra o mundo. Simultaneamente, no espaço da historiografia, da economia  e da sociologia  uma nova geração dispunha-se a reexaminar, sob ótica crítica, o nosso passado e certas circunstâncias do nosso presente. Na verdade, o Rio Grande foi o tema da época, colocávamo-nos no eixo do universo.

E o Caderno de Sábado fez o registro desta espécie de revolução. Todos os escritores e pensadores do RS encontraram abrigo em  suas páginas, fossem conservadores, liberais, ou esquerdistas das mais variadas feições. Inclusive os jovens lá podiam publicar seus primeiros contos, poemas, ensaios. Também o cinema, a arquitetura, as artes plásticas, o teatro e a música locais foram objetos de dezenas de artigos reveladores. Era um espaço aberto em meio a uma sociedade fechada e condenada ao silêncio. O Caderno tornou-se o porta-voz de uma onda de criatividade e de protesto, explicito ou difuso, contra o tempo presente. Nele, a intelectualidade da província expunha-se, legitimava-se e era arguida, mostrando uma influência sobre a vida social que perderia quase que inteiramente nas décadas seguintes. Em todos os sentidos, o Caderno de Cultura foi a síntese de uma época, sua melhor e mais acabada representação

Seria injusto, contudo, rotulá-lo como um suplemento puramente localista. Puxado pelos “garotos de ouro” de P.F. Gastal (garotos nos 70, é claro), Antonio Hohfeldt e Ney Gastal, estabeleceu-se uma poderosa abertura para o nacional e para a cultura mais cosmopolita. Por exemplo: toda a literatura brasileira que então surgia – em quantidade desmedida - foi recenseada e analisada. O boom latino-americana foi acompanhado no calor da hora por Flávio Loureiro Chaves e, em quase todos as semanas, aparecia um artigo iluminador de J. H. Dacanal sobre as obras de um Montaige, de um Stendhal ou de um Kafka. Os jovens letrados (como eu) esperavam ansiosamente pelos sábados para fruir o suplemento do Correio do Povo e colecioná-lo.

Portanto, o ressurgimento do Caderno de Sábado é um triunfo, soberbo e reconfortante, da vida cultural sul-rio-grandense em nosso estado.

 



(*) Sergius Gonzaga é professor de Literatura Brasileira na UFRGS e ministra cursos na Casa de Ideias. Durante sua carreira participou de centenas de cursos, mesas e palestras no estado, país e exterior (Argentina, Uruguai, Espanha e Portugal). Como cronista e comentarista de livros, trabalhou vários anos na TVE e na TV Guaíba. Criou o jornal de cultura Já e as editoras Novo Século e Leitura XXI. Foi um dos fundadores do curso Unificado e do colégio Leonardo da Vinci. Dirigiu a editora da UFRGS e o Instituto Estadual do Livro. De 2005 a 2012, exerceu a função de Secretário Municipal de Cultura, de Porto Alegre, e no ano de 2010 tornou-se o representante da Associação Brasileira dos Municípios junto ao Conselho Nacional de Cultura. Entre suas obras, destacam-se oCurso de Literatura Brasileira, Guia de leitura de A rosa do Povo, Guia de leitura de estrela da vida inteira, O hipnotizador de Taquara (crônicas), Erico Verisimo e Josué Guimarães.