Fischer - Questão mais sutil, essa. Tem algum espaço para o ensaio nas editoras comerciais, mas não é tão óbvio dizer isso, a começar pelo conceito de ensaio que estejamos tomando em conta. No campo acadêmico, em que há ensaios em um sentido do termo (que não é o sentido da minha tese, nem o da tua pergunta), há uma infinidade de iniciativas editoriais, em papel ou em meio digital; no mercado por assim dizer leigo, o espaço mais notável, no campo específico, é reservado para a crônica. Veja o caso da editora Arquipélago, aqui de Porto Alegre, que edita livros meus: ela se define como uma editora de não-ficção, oferecendo reportagens-quase-ensaios, como os textos da Eliane Brum (excelentes sempre e amplamente recomendáveis) e crônicas, mas também estudos como os meus, entre os quais há um, o Filosofia Mínima, que tem certa alma de ensaio, ou ao menos espero que tenha.
Livros A+ – Nas primeiras entrevistas como patrono da Feira do Livro, tu disseste que queria defender o leitor e oferecer uma maior diversidade de livros aos frequentadores da feira. Na tua opinião, o que dificulta o acesso ao maior número de títulos nas bancas tradicionais ou nas representadas por sebos? Há uma questão ligada aos distribuidores ou são os livreiros que não querem arriscar?
Fischer - Em termos amplos, a resposta é comercial: quem tem barraca na Feira quer faturar bastante, e por isso há uma tendência a fechar o foco nos mais óbvios, nos já demandados. O caso é que na Feira há barracas de vários tipos: há editoras, que tendem a vender o livros que a própria editora publica; há livreiros, donos de livraria, que pensam como varejistas que ao longo do ano precisam cultivar uma clientela e por isso precisam pensar em variedade, ao menos tendencialmente; e há os distribuidores, que na Feira são também varejistas, que ao longo do ano não têm loja, mas sim depósito, e por isso tendem a pensar em seus termos. Cada um tem um estilo de viver o universo do livro, cada qual com suas características. Não se trata de haver bandidos e mocinhos, e é bom dizer isso claramente, mas tendências de acordo com a inserção de cada um no negócio do livro. Vale acrescentar que a Feira é feita por uma entidade de classe que congrega o mundo do livro do Rio Grande do Sul, e é por isso que em princípio as grandes redes de varejo não estão na praça – porque não são afiliadas à Câmara Rio-Grandense do Livro. Dito isso tudo, vale acrescentar que a direção da Câmara tem todo um trabalho para induzir os filiados que colocam barraca na praça a que vendam a maior variedade possível de títulos, justamente por causa da atenção ao público. E vale uma dica: quando há mais de uma barraca com o mesmo livro, vale a pena pechinchar, porque há variação de preço entre as barracas. Como numa feira qualquer...
