Por uma Flip mais negra
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Por uma Flip mais negra

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Em defesa da presença negra e das e das autoras, Roberta, Ana maria, Andréa, Conceição e Maria Valéria. Foto: Luiz Gonzaga Lopes. Em defesa da presença negra e das e das autoras, Roberta, Ana maria, Andréa, Conceição e Maria Valéria. Foto: Luiz Gonzaga Lopes.


 

Mesa no Espaço Itaú Cultural de Literatura reuniu cinco escritoras, das quais três negras, que reivindicaram pluraridade e diversidade do evento

 

Luiz Gonzaga Lopes

 

 

A tônica da 14ª Festa Literária Internacional de Paraty já foi definida numa mesa antes da abertura da programação oficial na noite desta quarta-feira, 19h, com a homenagem a Ana Cristina Cesar pelo amigo Armando Freitas Filho e o cineasta Walter Carvalho, com a mesa "Em Tecnicolor" e a sessão do filme "Manter a Linha da Cordilheira sem o Desmaio da Planície". de Carvalho sobre Armando, e com referência ao suicídio de Ana C. e à amizade de Armando com ela: Na mesa promovida à tarde, no Espaço Itaú Cultural de Literatura, as cinco escritoras presentes, das quais três negras: Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Roberta Estrela D´Alva, além de Maria Valéria Rezende e Andréa Del Fuego, a reivindicação foi em uníssono, que autores negros participem da programação oficial do evento. Na mesa "De Onde Escrevo", Conceição Evaristo, autora de Olhos D´Água e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense foi questionada por um jornalista sobre o manifesto assinado por professoras da UFRJ, chamando a Flip de "Arraiá da Branquidade", ao qual ela se engajou. Na resposta, Conceição destacou que o nome dela e de uma homenagem ao cineasta Zózimo Bubul foram sugeridos à curadoria da Flip em abril deste ano, mas que não obtiveram resposta positiva. "Uma cidadania lúdica não nos interessa. Não queremos dar visibilidade só a desportistas e cantores, mas a negras intelectuais, professoras, escritoras. O Arraial da Branquidade não representa só a falta dos negros no meio intelectual, mas também as próprias relações sociais brasileiras.

 

O curador da Flip, Paulo Werneck, estava presente á mesa e pediu a palavra para reconhecer a falha da falta de autores e autoras negras e pedir ajuda, os caminhos para chegar até uma Flip com mais presença negra, com maior diversidade. "Estamos aqui para ouvir e dialogar. É preciso estender estas pontes. Eu preciso conhecer, descobrir estes escritores. Nós aporrinhamos várias escritoras e escritores negros para que pudéssemos contar com eles na programação", disse Werneck, ao que respondeu Conceição: "Pena que não fui eu a aporrinhada". O curador da Flip lembrou que em abril a programação da Festa já estava fechada. Ana Maria Gonçalves, autora de "Defeito de Cor", destacou que Werneck deveria ter em sua assessoria, na sua estrutura de coordenação, alguém ligado aos movimentos negros, à literatura negra, algum pesquisador da área. "Nos cursos de Letras da UFMG, da UFRJ,  temos autores e pesquisadores de literatura africana e afro-brasileira. O senhor precisaria dialogar com os movimentos negros, sociais, militantes, professores, para que este processo parta da curadoria e chegue aos negros, índios e literatura homoafetiva. Eu não falo por mim, eu sou a voz de vários", ressaltou Conceição.

 

A santista, ex-freira, vencedora do Jabuti em 2015, radicada em João Pessoa, Maria Valéria Rezende, de 74 anos, foi mais adiante e disse que também os autores nordestinos são preteridos e que está tudo fora do lugar e que a hora de bagunçar, protestar, é o momento da virada. "Chega de branco para lá e negro para cá. Amar, buscar, se enriquecer com o diferente é o que eu procuro na minha literatura. Estou atrás de alguém que não sou eu", lembrou.

 

A atriz-MC, diretora, pesquisadora e slammer Roberta Estrela D´Alva, fundadora do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, que congrega teatro e hip hop, salientou que não será de uma hora para outra esta construção cultural de mais de 400 anos de sociedade escravocrata, mas que a hora é de afirmar, de impor autoridade, das mulheres, negros, índios, homossexuais, trans, mostrarem a sua voz. "Temos que puxar uma autoridade, usar uma energia que até é masculina para sermos ouvidas. Nesta luta, espero que a gente possa ter esta voz de autoridade usando menos força", indicou Roberta.

 

Andréa Del Fuego, autora de "As Miniaturas", com o qual venceu o Prêmio Saramago, também destacou que o escrever e a questão de uma Flip mais negra passa pelo exercício da alteridade. "Na minha criação literária, eu quero o sair de si e ver o lugar de fora. A gente precisa se perguntar que paisagem é essa e como ela sai do lugar de origem. A literatura é sempre uma ideia provisória", finalizou.

 

A Flip segue até 3 de julho, com 21 mesas e 39 autores na Tenda Principal, além da Flipinha, Flip +, Flipzona e programações paralelas em locais como o Espaço Itaú Cultural de Literatura, Casa de Cultura Cãmara Torres, Casa Folha etc. Mais informações pelo site www.flip.org.br. O Itaú Cultural transmite a programação da Flip pelo www.itaucultural.org.br