Livros A+

Um narrador que beija a parede




Por Luiz Gonzaga Lopes

“A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos.”

Walter Benjamin em O Narrador – Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov.

Em 2013, O Beijo na Parede (Editora Sulina) rompe com as estruturas fragmentadas da maioria dos romances contemporâneos, e de forma não menos criativa, consegue nos apresentar um narrador ágil, uma história fluente, temas pesarosos com viés lírico, um personagem infantil, órfão, que desprovido de afetos acaba virando um pequeno herói cotidiano, amparando aos desgarrados que gravitam em sua órbita. O blog Livros A+ lembrando de Walter Benjamin, da fonte dos narradores, que são as histórias orais, observa que o livro de Jeferson Tenório - mestre em Literaturas Luso-africanas pela Ufrgs e professor de Literatura em escolas de Porto Alegre, além de organizador do Sarau das Seis, na Palavraria, e da Feira Além da Feira, que está em atividade na cidade – prima pela fluência da narrativa, contando as histórias de João (narrador em primeira pessoa), em muitos momentos trágicas e complexas, como se fossem a partir de narradores orais, a busca da simplicidade, da ordem direta das frases, do sujeito, verbo, complemento (ou predicado).

Da sinopse do livro, podemos dizer que João é forçado a deixar o Rio de Janeiro natal, após perder a mãe para o câncer. Na companhia do pai, vem para Porto Alegre, onde eles buscam parentes, mas o pai não resiste e se enforca. Aos 11 anos, João é órfão e tem uma bagagem trágica em suas costas. Esta sucessão de abandonos acaba sendo transformada em uma rede de relações com pessoas aparentemente desgarradas. Na companhia do Dom Quixote, de Cervantes, de uma frase sobre ser imprescindível de Brecht e com uma energia psíquica interna acima da média, João acaba acalentando estas pessoas, dois idosos, um travesti, uma prostituta e alguns amigos das ruas e do abrigo para crianças. Para contrariar a frase de seu Ramiro, João não quer deixar o mar envelhecer dentro de si. Jeferson autografa o livro nesta quinta, dia 14, às 19h, na Praça Central da 59ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Para entender um pouco os mecanismos desta narrativa, fomos conversar com o autor.  Esta conversa está em forma de tópicos com respostas, um pouco diferente das entrevistas tradicionais, mas este romance não é uma obra tradicional, é pungência trágico-lírica. Com vocês, Jeferson Tenório: 

Narrativa?

Jeferson Tenório – Eu queria escrever um livro que eu gostasse de ler. Queria um livro que fosse fluente, que o leitor conseguisse se envolver. Comecei a história com um narrador, um velho, o senhor Ramiro, mas depois da leitura de alguns livros sobre crianças órfãs ou sobre adolescentes - como “Oliver Twist”, do Charles Dickens, “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain, e “O Ninho da Serpente”, do cubano Pedro Juan Gutiérrez, este com narrativa fluente sobre o adolescente de 15 anos (ele mesmo), vendedor de picolés e que descobre a sexualidade e o contexto político e social de Cuba – mapeei o tipo de linguagem apropriada para o personagem e resolvi escrever sob o ponto de vista do João.

Protagonista?

Jeferson - Este personagem consegue dizer coisas simples com profundidade. Há algo neste personagem, João, que faz com que ele não caia. Pertence à tipologia de narradores marginalizados, de personagens que não caem, mas que transformam. Os professores Ricardo Barberena e Eduardo Cabeda comparam o livro a “O Passageiro do Fim do Dia”, de Rubens Figueiredo, mas no caso daquele livro seria um narrador de classe média falando da favela, da classe baixa, pela observação externa e que o meu livro seria com a linguagem trabalhada de dentro, na própria esfera do personagem.

Aforismos?

Jeferson – Eu sou muito leitor de Nietzsche. Ele era um aforista. Boa parte da sua filosofia foi construídas com máximas, frases essenciais, únicas. Como trabalho a linguagem de forma direta, com sujeito, verbo e complemento, com poucas inversões e tinha a experiência de sete anos em sala de aula, lecionando em escola pública, registrada em forma de aforismos num diário. Lá os alunos eram pequenos filósofos, perguntas incessantes, como: “o senhor acredita em Deus?”, “o senhor acredita na felicidade?”. Então, acabei introduzindo estas máximas no texto, quando cito o Cervantes ou o Brecht ou a frase do seu Ramiro: “Deixei o mar envelhecer dentro de mim”.

Título do livro? Metáfora?

Jeferson – O Beijo na Parede é a metáfora daquele momento quando todos já se foram e só resta a parede. A parede representa o último ato de afeto. A parede é fria. O interessante é ver que João aprendeu a beijar a parede e não a tentar contorná-la ou pular como se fosse um muro. O importante é ver como ele lida com a falta de afeto, de amor. Ele foi buscar amparo nas pessoas e acabou amparando todo mundo.

Referencias teóricos?

Jeferson - Da teoria literária, as minhas principais referências são o Frederic Jameson, com os trabalhos sobre as mudanças no campo estético, o Antônio Candido, pela questão da profunda análise sobre literatura brasileira e do contexto político e social, Roberto Schwarz, Walter Benjamin e outros.

Eventos literários?

Jeferson - Existe uma cena bem interessante. O Sarau das Seis já está indo para o segundo ano. Eu comecei organizando eventos na universidade, na Ufrgs. Aos poucos, fui trabalhando com outras pessoas que trabalhavam com a literatura e conseguimos organizar eventos com grande participação e também com bastante conteúdo, como é o caso do Feira Além da Feira, neste mês de novembro. Acho que Porto Alegre tem que romper com este provincianismo. A gente vive num clubinho de literatos. Porto Alegre permite todos os eventos literários possíveis. Quanto mais, melhor.

Publicação?

Jeferson - Eu tenho muito a agradecer ao Luis Gomes, editor da Sulina, pois ele acreditou e bancou o projeto. Eu tinha como princípio demorar mais um pouco a publicar, mas não pagar para ser editado e acabou acontecendo muito pelo empenho do editor, que publica mais livros acadêmicos do que romances. São pessoas assim que precisamos no meio editorial, que acreditem e que vejam o potencial de cada livro .