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Viver para contar



Os dois prêmios recebidos neste final de ano por Cíntia Moscovich por “Essa Coisa Brilhante que é a Chuva” foram considerados inesperados e surpreendentes. “Quando eu ganhei o Portugal Telecom, me caiu a bunda, como se diz. Não estava com o meu companheiro neste prêmio que é o Michel Laub. Estava o Luiz Paulo (Faccioli, marido e também escritor), o Assis Brasil e eu. Estava tomando champanhe e aproveitando a noite surreal. Quando saiu o anúncio, o Assis disse vai e eu empaquei um pouco. Quando subi ao palco do Auditório Ibirapuera para receber o prêmio, é que eu senti a minha respiração forte e entendi toda a batalha contra a doença. Eu sobrevivi e terminei o livro. Ali estava o reconhecimento. Eu só pensei em agradecer os médicos que me trataram, Nédio Steffen e Carlos Barrios”. Quando recebeu o anúncio do prêmio Clarice Lispector, Cíntia só lembrou da coincidência histórica de “Laços de Família”, de Clarice, ser um dos livros que a influenciou a escrever e que devia haver algum sentido dela receber este prêmio literário. “Quando eu recebi a noticia do segundo prêmio em questão de pouco mais de uma semana, pensei que foi um sinal dos céus, de que algo deu certo no livro, de uma pessoa que tentou usar toda a força que podia para trabalhar nos contos e aí comecei novamente a agradecer por esta experiência quase transcendente, por estar vivendo, trabalhando e produzindo, por esta segunda chance de vida”, constatou Cíntia.

 

“Dona Neide, a única opção é a cirurgia. Depois se tivermos sorte, quimioterapia. A senhora não pode varrer isso para debaixo do tapete.” - Conto “Aos Sessenta e Quatro”

 

Nos nove contos de Essa Coisa Brilhante que é a Chuva, os conflitos são estabelecidos pelo cotidiano, pelas pequenas tragédias, pela iminência da morte e pelas transformações quase imperceptíveis que o ser humano pode sofrer. Talvez o conto que mais represente o período da doença seja “Aos Sessenta e Quatro”, no qual a personagem Neide descobre aos 64 anos que está com câncer: “Dona Neide, a única opção é a cirurgia. Depois se tivermos sorte, quimioterapia. A senhora não pode varrer isso para debaixo do tapete”, diz o médico à personagem no meio do conto.



No entanto, Cíntia não queria que os contos do livro fossem eivados de dor e o humor, muitas vezes nutrido com as tradições e pequenas manias do povo judaico, que aparecem em excelente forma no conto “Gatos Adoram Peixes, mas Odeiam Molhar as Patas”, quando é narrada a história de Saulzinho, que tem o nome do primeiro rei de Israel. O jovem cuida da ferragem que era do pai, quer dizer para a mãe que não quer mais que ela o trate como uma criança e que irá sair de casa. A situação reverte quando a mãe viúva começa a namorar e não dar mais tanta atenção a Saul, mein kindale. A Saulzinho só resta ter ciúme, sonhar que é o rei de Israel e deixar uma lágrima gorda e insistente teimar em brilhar no escuro. Em “Um Coração de Mãe”, dedicado à mãe Geni, Cíntia percorre o sofrimento da viúva Dóris, que sente a morte a visitar-lhe, mas tenta ir ao hospital sozinha, sem ajuda de filhos ou de desconhecidos na rua, imperiosamente só.

 

Os outros contos do livro têm todos uma boa dose de humor, como em “Caminho Torto para uma Linha Reta”, na qual a vizinha Dorotília faz de um ato amoroso de recolher cães e gatos das ruas e oferecer aos vizinhos algo perto de um trambique; ou como no conto “A Balada de Avigdor”, no qual Avigdor e Débora não são os orgulho dos pais em casas vizinhas divididas por um murinho, mas ele dedicado ao balé e ela ao caratê subvertem as expectativas paternas, se casam e acabam sendo destaque nas suas atividades, fundando até a ONG Pés pela Paz. “Nos contos deste livro, os personagens têm um surto de consciência. O que eu queria esta isto que, de repente, eles tivessem uma compreensão do mundo, como é o caso desta menina em "Mare Nostrum", que está morrendo de medo da liberdade, e percebe que está divertindo o pai e a mãe quando vai pegar um jacaré de planonda”, explica a escritora, jornalista e mestre em teoria literária, que já foi diretora do Instituto Estadual do Livro entre 2001 e 2002.  “O Brilho de Todas as Estrelas” trata da amizade entre Ernesto e o seu cachorro Astro e da predileção do velho pelas coisas da astronomia, enquanto que “Tempo de Voo” acompanha um homem que presencia um atropelamento, mas que nada pode fazer, pois “está preso a duas pernas que não andam e a duas rodas que não voam”. Já “Uma Forma de Herança” dá ares de novela ao tratar da relação da narradora com a casa preferida do seu pai, já falecido, a casa da rua Marquês de Abrantes, e os impasses entre vende-la ou assumi-la e reforma-la.

 

Depois de sobreviver para contar estes contos, Cíntia projeta o romance,  com o título provisório de Leite Negro, que parte de uma história real contada a ela por uma família berlinense, de uma mulher judia que está presa com sua família em um campo de concentração na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. “Ela consegue escapar do campo de concentração e vem para o Brasil, onde casa, engravida e tem um filho. Uma enfermeira da Cruz Vermelha leva as fotos do neto para a avó ainda no campo. A vó agradece a Deus por ter vivido para ter visto a foto do neto. É esta a história que vou desenvolver”, finaliza a escritora, que viveu o seu grande drama, mas sobreviveu para conta-lo para a alegria de todos nós, seus leitores fiéis e sempre ansiosos por novos textos.