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Apenas torcedor

Por Guilherme Alf

Acompanho futebol há  bons e longos anos. Vi e vivi algumas coisas muito interessantes. Por força do meu trabalho, ou de relações pessoais, nestes anos tive a oportunidade de conviver um pouco com gente que é “de dentro do vestiário”. Eu sou um cara apaixonado por histórias, por trocar idéia, por me comunicar e saber algumas coisas “internas” sobre futebol sempre me atraiu muito. Muitas dessas passagens eu ouvi dentro de casa, pois meu pai foi preparador físico profissional durante 10 anos. Desde pequeno, quando comecei com as minhas primeiras “reclamações” ele me dizia: “meu filho, quem está lá dentro do vestiário é que sabe o que acontece de verdade”. De tanto ouvir isso, eu acabei criando uma certa paciência a mais com tudo, sempre pensava, "bom se o treinador esta fazendo isso ele deve ter os seus motivos que eu não sei". Nem sempre funcionou, já perdi a calma e a paciência com muitos deles no estádio.



Atualmente estou fazendo um curso sobre Futebol na Perestroika. Essa semana tive uma aula com o Dunga. Não foi bem uma aula, foram duas horas de “tapa na cara”, mostrando a nós, torcedores, que não sabemos da missa a metade. Eu já era fã do cara, agora então... Ouvindo ele falar diretamente, sem a imprensa (eu mesmo, no caso) para “recauchutar” a informação conforme interesses alheios e ocultos, você passa a pensar duas vezes antes de criticar o cara. E como ele fala diretamente, talvez isso tenha incomodado muita gente, nós ( o ser humano de uma maneira geral) não está acostumado com o preto no branco e o cara que é assim acaba destoando, quando devia ser o contrário.
Que existem interesses no futebol, isso qualquer criança já nasce sabendo, mas uma partida para ser vencida tem tanto detalhe em volta, que eu prefiro ser apenas torcedor. Eu prefiro ficar com o sofrimento dos 90 minutos, com a aflição da bola na trave, com a  emoção do gol no fim do 2º tempo, sem entender tão profundamente os motivos disso. Eu prefiro creditar as forças divinas um gol como o da Batalha dos Aflitos. Eu vou ser mais feliz se aceitar que o treinador do meu time quer sempre ganhar, que ele busca sempre a vitória para o meu time, mesmo que ele jogue com 5 volantes. Eu vou me emocionar muito mais sabendo que fui tetracampeão do mundo porque o Dunga deu 238 carrinhos no meio de campo e não porque uma empresa de material esportivo tinha um contrato com algum cartola.
Acho que o futebol deve evoluir como empresa. Acredito que os clubes devem se modernizar, que os dirigentes devam se qualificar para comandar uma equipe ao sucesso. O marketing esportivo deve servir como uma fonte de receita para tornar o clube cada vez mais forte.  Mas vamos deixar o torcedor fora disso? Vamos ser apenas torcedores apaixonados, numa relação de confiança, amor e esperança com aqueles que estão dentro do vestiário. Isso é se enganar? Acho que não, isso é encarar que não temos acesso a tudo, que não sabemos  de tudo e que melhor do que xingar, é ver o lado bonito do futebol, pois sim ele ainda existe.

Nota: Em uma época em que o meu próprio time atravessa uma fase política complicadíssima, que este texto sirva de inspiração para os torcedores comuns como eu.  Vamos amar mais o futebol!