Por André Araujo
Olá! Meu nome é André Araujo e não sou guia de viagem. Nunca tinha feito nada parecido e, por isso mesmo, estou tentando fazer do meu jeito. Vim passar dois meses em Nova York com a minha irmã e fui convidado pelo Mais Preza para escrever uma coluna com as minhas impressões sobre a cidade. É isso que tentarei fazer daqui pra frente, semanalmente.
Essa primeira coluna é mais uma visão geral, mas pretendo expandir mais FATOS e colocar mais fotos também. Se quiserem os endereços dos locais que eu citar aqui, ou nomes específicos pra visitar, posso fazer uma seção DICAS, apesar de eu já adiantar que não sou muito bom pra lembrar, mas me esforçarei.
1- NY é uma cidade fácil pra se viver: NY é uma cidade difícil pra se viver. Como todos que moram aqui, ou a grande maioria ao menos, vêm de outros lugares,
todos se tornam automaticamente nova-iorquinos no momento que chegam e se instalam. E como há gente de todo o universo por aqui, não há realmente problemas de adaptação cultural. Porém, a adaptação não é fácil em termos de "se estar no centro do universo". É muita coisa pra fazer, muita gente fazendo coisas legais o tempo todo, a oferta é absurda. É preciso DECLINAR convites pra ir, por exemplo, na Ludlow Street numa sexta à noite com praticamente entrada liberada em todos os bares, pra ir num restaurante francês absurdamente barato no Lower East Side ou coisas assim. É um pouco deprimente pensar no milhão de coisas que você NÃO está fazendo, mas a depressão logo se dissipa quando se começa a FAZER aquilo que foi escolhido. É uma cidade paradoxal, sem dúvidas, e um pouco propensa para a solidão também, mas JAMES MURPHY já falou disso exaustivamente e vocês podem conferir direto na fonte esse lance.2 - The PBR Nation: o mesmo fenômeno que vemos ocorrer em Porto Alegre quanto às cervejas artesanais (e tudo mais artesanal) já ocorreu há mais de 20 anos aqui, por motivos muito semelhantes. As cervejas comerciais eram monopolizadas por uma grande empresa e não havia concorrência. A qualidade, obviamente, diminuiu absurdamente. Aparentemente ninguém em NY bebe Budweiser ou Miller, consomem apenas garrafas com grãos selecionados colhidos à mão por fazendeiras virgens da Macedônia, daí pra cima. Mas eles bebem PBR - ou Pabst Blue Ribbon -, uma cerveja que rivaliza em qualidade com a nossa estimada GLACIAL. É uma cerveja muito barata e começou a ser consumida ironicamente como traquitana do povo hipster (os hipsters aqui são tão populares - positiva e negativamente - quanto no Brasil). Desde então, a cerveja se tornou um traço definidor da TRIBO e é quase um estereótipo. Portanto, você pode avaliar um bar pelo destaque com que as PBRs são anunciadas no quadro de preços. Quanto maior, mais hipster. (eu gostei da cerveja, me julguem).
3 - …and the hipsterland: e isso me leva ao paraíso das PBRs, Williamsburg. Bedford Avenue ou Metropolitan Avenue, podem escolher. Não há erro: todos os bares estarão lotados de pessoas legais, bebendo cervejas e ouvindo música boa. Elas também estarão comendo quitutes de comida orgânica, mas isso é apenas um detalhe. É engraçado, entretanto, que o lugar mais AMERICANIZADO que fui até agora ficava justamente na Metropolitan Avenue, em contraponto com o cosmopolitismo cultural do Brooklyn. BARBECUE comido com as mãos é algo muito true, e tomando cerveja em potes de manteiga de amendoim (vazios e lavados). Mas, mesmo que atestem constantemente a decadência de Williamsburg (vide abaixo), ainda é um lugar legal demais, sério. Um exemplo: na mesma rua, 11st., fica: a Brooklyn Brewery, o bar da Brooklyn Brewery (sério? sim, mas tem boliche e cerveja liberada a partir das 14h por poucos dólares), a sede da VICE, o Wyatt Hotel (bar no terraço com a maior de todas as vistas possíveis de Manhattan), o Beacon"s Closet, que é um brechó absurdamente legal e outras coisas que não descobri ainda. Agora multipliquem isso por quinze quadras pra cima e umas 6 para os lados e temos Williamsburg.
4 - A ocupação das ruas: as pessoas aqui não ficam em casa. De jeito nenhum. Por nada nesse mundo. Qualquer oportunidade que existir de se estar do lado de fora, você estará do lado de fora. Inclusive as pessoas que "trabalham em casa", sempre saem pra escrever ou fazer seus negócios. Os cafés estão sempre lotados de pessoas com computadores e fones de ouvido, concentrados em suas telas e alienados do fluxo constante de outros trabalhadores informais ao seu redor. Seria a quantidade absurda de cafés que existem nessa cidade decorrência direta desse hábito de não ficar em casa, ou as pessoas não ficam em casa porque há uma quantidade absurda de cafés na rua, quentinhos e confortáveis, com internet de graça? E é preciso frisar: dizer que você vai trabalhar num Starbucks pro pessoal """"descolado"""" é quase uma ofensa e sentença de morte social. É importante que você tenha um café preferido, uma bebida preferida (de preferência orgânica) e uma mesa especial, perto da janela. O Starbucks fica para os estudiosos de magia negra, com seus livros de Alesteir Crowley ou para os temidos seres que qualquer nova-iorquino abomina do fundo de seu coração e que perturbam seu sono com os mais terríveis pesadelos: os turistas.
5 - Gentrificação: é uma palavra estranha, que provavelmente nem existe em português, mas em NY, mais especificamente no Brooklyn, que é onde eu estou ficando, ela é a bola da vez. Gentrificação é um fenômeno que consiste na reocupação de bairros por um classe social diferente. Por exemplo, o bairro que estou chama-se Caroll
Gardens e era originalmente um espaço de imigrantes italianos. Com o aumento dos preços em Manhattan e a sua superlotação, a classe média branca e americana começou a se mudar pra cá, transformando toda a infraestrutura do bairro. E é um negócio curioso, pois ele ocorre na direção oeste-leste (todos tem uma bússola na cabeça por aqui), de Manhattan para o Brooklyn profundo.6 - Esquilos: esquilos são criaturas agradabilíssimas, mas eles podem ser violentos; vide imagem. Muito cuidado com os esquilos no Central Park. Quando você menos espera, eles podem te atacar. Sério.
PS: toda quarta vai ter um post do André por aqui, favorita e te liga!
