Embaixo da Ponte #2
Sem falar dos bairros étnicos. Um exemplo são dois dos pontos mais contrastantes daqui, curiosamente unidos pela sua posição geográfica: Upper East Side e Lower East Side. Um é o bairro dos bacanas; Park Avenue e burguesia do "mercado das artes"; maior definição possível daquilo que chamamos Alta Sociedade.
Já o outro é a chinelagem, boemia e descontrole na madrugada. Acredito que os nomes dos bairros, ainda que relacionados à sua posição geográfica e não à características sócio-culturais, já indicam qual é qual. No Upper East Side se caminha nas ruas e não se vê nada; as coisas acontecem atrás de portas fechadas. No Lower East Side, a rua é o palco para seja lá qual for a performance.
Você é convidado para um jantar com a nata dos colecionadores de arte do mundo por causa de sua bolsa de pesquisa, discute as implicações estéticas de um romance lançado há uma semana e, logo depois, recebe uma lista involuntária de todos os casamentos e separações dos bambambans no último ano. Quando se está indo embora, descobre que estava no prédio onde mora o Phillip Roth. Ou, você pode entrar no Piano"s, na Ludlow Street, conhecer um músico de INDIE FOLK da Nova Zelândia (Bird Carriages), depois ir para o apartamento onde o disco do MGMT foi mixado e cujo dono já tocou baixo no LCD Soundsystem e terminar a noite no Max Fish, que consegue ser mais chinelão que o Élio nos seus bons tempos.
O que se pode dizer perante essas duas situações, completamente distintas e irreconciliáveis? Bem, aparentemente se diz apenas uma coisa e já é suficiente: "It"s New York City, baby".

2. Nevou na noite de Natal: Peço desculpas por não ter mencionado isso semana passada, mas é que foi algo tão marcante que não poderia deixar de registrar.
3. Literary NY: Como sou um grande nerd fuçador de livrarias, uma das minhas principais atividades durante minhas andanças por aqui é tentar sacar "o que rola de novo" pelas prateleiras nova-iorquinas. Posso afirmar com certa tranquilidade que o nome da moda agora é o escritor dominicano/americano Junot Díaz.
Ele ganhou o Pulitzer em 2008 por um romance chamado The Brief Wondrous Life of Oscar Wao, que narra a infância de um latino-americano criado em NY. O livro é escrito numa espécie de ESPANGLÊS safado para americano entender, assim como seus contos que foram reunidos num livro recém lançado aqui, chamado This is How You Lose Her. Mas o cara é tipo o expoente, ou pelo menos o mais destacado entre outros, de uma tendência na literatura americana que começa a se estruturar mais notavelmente nas vitrines das livrarias: literatura de imigrante. Não sobre imigração apenas, mas produzida pelos próprios (ou ao menos de seus descendentes diretos).
Ao lado de Junot Díaz e de seus troféus, poderia constar também Sergio de la Pava, com o seu A Naked Singularity, uma espécie de thriller de tribunal PLURIMETAFÓRICO (não li ainda) com 700 páginas, auto-publicado pelo autor em 2008 e que saiu agora em 2012 pela Univesity of Chicago Press; Teju Cole, americano/nigeriano/belga, que faz um lance meio flaneur-séculoXIX-dostoiévski na NY pós-onze de setembro; e o Ben Lerner, americano/americano que escreve sobre seu período de imigrante na Espanha pré-crise no Leaving The Atocha Station. Essas são, para mim ao menos, as novidades, mas poderíamos incluir na lista aí de super-destaques-literários o novo da Zadie Smith, NW, e do Michael Chabon, Telegraph Avenue, (ambos já escreveram sobre imigração também), e, como não poderia deixar de ser, do velho amigo David Foster Wallace (a biografia, Every Love Story is a Ghost Story, está em TODAS as vitrines que vi até agora - ganhei uma cópia autografada da mana no natal).
St. Mark"s Bookshop
Strand (e a banquinha no Central Park)
McNally Jackson
Book Court
East Village Books
extra: Power House (não fui ainda mas DIZ QUE é boa)
5. New Year"s Eve: A dica é: passem dentro do metrô. As estações estarão cheias de gente já convencidas do fato que se atrasaram pra ver os fogos ou pra brindar logo na virada e que decidem, de fato, abraçar estoicamente o destino de cruzar a fronteira do ano no subterrâneo e se divertir da melhor maneira possível. Dessa forma, o metrô fica muito animado quando vai chegando perto da meia-noite e se torna uma espécie de festa comunitária. Todos estão presos ali pelo mesmo motivo, melhor então aproveitar com os pares. Ainda que eu tenha conseguido chegar a tempo na minha festa e abandonado meus desconhecidos companheiros de atraso, a experiência do metrô foi marcante.

6. Bushwick: Williamsburg já não é mais o que era ("midiatizou" é a expressão que usam por aqui, uma espécie de orkutizou); o novo bairro para os COOLHUNTERS TRENDSETTERS ficarem de olho em 2013 é Bushwick. Apesar de ainda ser um bairro meio underground, barra pesada até em certos pontos, é o que melhor ilustra o nosso imaginário do que seria o Brooklyn: lugar de gente louca e alternativa, sendo diferente por opção e afirmação. Fiquem ligados que daí sairão coisas interessantes, mesmo que sejam apenas as fotos no Facebook de uma festa de Ano Novo lotada de porto-alegrenses.
PS: toda quarta vai ter um post do André por aqui sobre suas ~~aventuras em Nova York! Aproveita e lê o primeiro post dele aqui!

