Fluxo - Tenho tido um sonho recorrente desde que cheguei em Nova York. Eu não sei exatamente dos detalhes, mas a sensação geral é de que estou sentado, esperando algo há muito tempo, ao mesmo tempo em que estou me movimentando muito rápido, sem conseguir ver o que acontece ao meu redor. Não é preciso ser um psicanalista freudiano para entender que isso tem a ver com um dos traços mais marcantes da rotina nova-iorquina: os metrôs.
É engraçado que não importa o que vá se fazer, sejam compras ou caminhadas, museus ou cinema, a viagem de metrô sempre fará parte do programa. Inclusive, a existência dessa malha ferroviária 24 HORAS (é, 24 horas) é o que proporciona a maior liberdade de movimentação possível. Tanto faz onde você esteja ou qual seja o seu destino; sempre é possível chegar sem muita incomodação.Você pode estar em downtown às 2 da manhã e receber uma mensagem sobre uma festa no Harlem, no extremo oposto da cidade. "Será que rola ir? Ah, é só uma viagem de metrô mesmo…". Sublime sensação: pode demorar, pode ser uma mão, mas sei que sempre chegarei em casa, não importa onde esteja.
Underground Times: Pensando friamente, é possível notar que se passa tanto tempo debaixo da terra quanto em cima, esperando ou se movimentando. Por isso a necessidade de otimizar o tempo passado no UNDERGROUND. Há alguns trens onde o pessoal se puxa na leitura (F, G, L), os """""trens literários""""" (juro que ouvi isso sem nenhum traço de ironia) que rumam para o Brooklyn cheios de COOL KIDS.
Os trens que passam por Midtown, nos pontos turísticos tipo Times Square e Quinta Avenida, são os trens das PERFOMANCES, além do comércio informal de balas e salgadinhos. Mas eu curto mesmo os trens que vão pro norte longínquo e pro sul profundo: Queens, Bronx, Harlem e Brooklyn ão-gentrificado (linha A). Diversidade étnica ou Torre de Babel, o que vocês preferirem. Egípcios, dominicanos, turcos, colombianos; discussões acaloradas em chinês e gargalhadas num espanhol que não entendo uma palavra. Indo do norte em direção ao sul, mais ou menos no meio da viagem essa GELEIA GERAL se dilui um pouco quando os CAUCASIANOS vão enchendo o trem ao longo de Manhattan. Porém, assim que a linha adentra o Brooklyn SPIKELEEANO, não é raro eu acabar como o único branco do vagão. Fazer uma viagem completa na linha A é necessário para compreender a SOCIOLOGIA URBANA NOVA-IORQUINA, muito mais que qualquer livro, artigo de jornal ou conversa de bar.
Brilho no Rosto: No metrô também fica mais aparente um traço físico que os americanos estão começando a desenvolver. Muitos deles, em momentos de repouso, desenvolvem uma espécie de brilho esbranquiçado no rosto, normalmente quando estão olhando para baixo. Isso não é uma metáfora, acreditem. É um fato, provavelmente decorrente das infinitas TELAS que agora são como extensões dos corpos americanos.

iPhones, iPads, Samsungs e mais uma variedade de outros aparelhos que não conheço, os PERIFÉRICOS agora são parte constituinte da paisagem urbana dessa cidade. Locomoção, programação e (pasmem) comunicação são todos mediados pelos aplicativos, ou pelo menos é o que parece. Não que seja uma grande novidade, mas uma coisa é pensar que isso está acontecendo e outra é presenciar essa proliferação desenfreada de telas em todo lugar que se entra. Que tais telas facilitam a vida cotidiana (e turística também, salve google maps), é fato, não discordo. Mas não estaria a vida se organizando em volta apenas daquilo que é facilitado pelos telefones, deixando de lado dezenas e dezenas de atividades independentes de seus aplicativos? Não sei.
* Semana passada o André falou sobre os cantinhos peculiares e tradicionais de NY ;)