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Embaixo da Ponte #6

Por André Araujo

Santa Maria: É difícil escrever uma coluna descontraída e pra cima, contando sobre as coisas legais que estão acontecendo em NY pra pessoas de vintepoucos, tendo na cabeça o incêndio de Santa Maria. A relação é pessoal demais e faz muito pouco tempo que aconteceu. Mesmo estando longe, não há como deixar de lado esse fato quando se senta pra escrever.

O acidente foi manchete de capa na maioria dos jornais daqui na segunda-feira: New York Times, Washington Post e até o Metro, condensado do jeito que é, deu uma página inteira pra Santa Maria. As pessoas que sabiam que sou brasileiro vieram todas me perguntar o que tinha acontecido, os detalhes da situação. Muito menos por curiosidade mórbida, creio, do que por sensibilidade universal.

Acabei me tornando uma espécie de porta-voz da tragédia, mas também um canal pra que as pessoas pudessem expressar seus sentimentos de solidariedade. Ou seja, eventualmente recebo abraços, ouço reclames indignados a respeito de segurança e descaso dos órgãos responsáveis, fico sabendo dos detalhes de tragédias semelhantes e o que foi feito para resolvê-las, como o incêndio em Buenos Aires em 2004 (um cara que mora comigo estava lá na época) ou da LoveParade na Alemanha em 2010 - até mesmo do furacão Sandy, aqui em NY.

Acima de tudo, entretanto, o que mais impressiona é a vontade de todos com quem falei sobre Santa Maria (e acreditem, todos aqui sabem do que aconteceu) de se manifestar sobre qualquer coisa que possa deixá-los um pouco mais próximos do ocorrido. Através dessa coluna, então, repasso os sentimentos de NY pro pessoal de Santa Maria; era preciso compartilhar.



McSorley"s: "Man, Lincoln used to drink there!". Essa foi a mensagem que recebi no meu celular quando convidei um amigo para ir tomar umas cervejas nesse legítimo pub nova-iorquino, em pleno Lower East Side. Na parte de trás do cardápio - que só possui duas opções: cerveja clara ou escura - está impresso um artigo da Harper"s saudando a longevidade do lugar, exaltando como o McSorley"s é um patrimônio da humanidade que jamais deveria ser modificado.

Um pequeno detalhe: tal artigo foi escrito em 1913. Naquela época, o bar só aceitava HOMENS que não estivessem bêbados. Nos anos 60, no auge do movimento de liberação feminina, um dos grandes EVENTOS aqui em NY foi a primeira vez que mulheres entraram no bar. Retrógrado e conservador, eu sei; mas foi simbólico e, pelas fotos que estampam as paredes do lugar, parece ter sido uma baita festa. Se há um bar que eu recomendo, tanto pelo preço, pela comida e pelo ambiente, é o McSorley"s. Mesmo que se passe três dias em NY, escutem o que digo: é a maior torção espaço-temporal que um bar pode proporcionar. E o melhor de tudo: a recomendação veio da minha sogra. Grande pessoa.

NFL: Já que entramos nos meandros barísticos, não poderia deixar de ter uma experiência verdadeiramente americana no meu tempo aqui: ir num Sport"s Bar assistir a um jogo da NFL. Isso é uma tradição que fica meio deslocada aqui em NY, pois o pessoal não é muito das DIVERSÕES ALIENANTES DA SOCIEDADE; mesmo assim, é possível encontrar lugares para exercer a cega paixão esportiva.

Não que seja fácil, pois essa cidade tem um truque de se esconder quando é necessitada. Se você está com fome e não tem um lugar específico onde ir, só encontrará restaurantes caros ou duvidosos. Se você precisa comprar um guarda-chuva, não haverá nenhum ambulante perto de você. Se você quer apenas sentar no bar para assistir os Patriots contra os Ravens, provavelmente os bares que encontrará estarão ou vazios, ou sem televisão.

 



 

Maior dica que posso dar sobre NY é: se programe antes de sair de casa; essa cidade pode ser cruel para os perdidos. Mas deixando isso de lado, tendo encontrado meu bar (35 televisões, jarras e mais jarras de cerveja, JERSEY"S de todos os tipos, mesmo de times que nem estavam jogando), tentei apreender todo o ambiente. Futebol americano é um esporte de lances espetaculares, em sua maioria: lançamento, agarrada, corrida e porrada (o chute é um bônus, mas ninguém dá muita bola). Ou seja, enquanto não estão rolando esses lances, o pessoal fica meio disperso, conversando sobre vários outros assuntos. Óbvio que tem os aficionados, que não tiram os olhos da televisão nem durante as centenas e centenas (e centenas) de propagandas que preenchem os "tempos mortos" da transmissão.

E enquanto estão rolando as propagandas, os bares diminuem o som da TV e colocam músicas de DJ, o que acarreta uma espécie de esquizofrenia sonora dada a quantidade de pausas que rolam durante esse jogo. Mas ninguém parece se importar, provavelmente por causa do costume. É muito diferente de um jogo de basquete, por exemplo, onde as pessoas chegam, assistem o jogo torcendo, e depois vão embora.

O Sunday Night Football, me parece, é mais uma grande desculpa para passar o dia todo no bar. Sim, é o dia todo. Não importa se você é torcedor ou está apenas procurando um lugar para passar o tempo, a tradição manda que em domingos de jogos o único destino possível é o bar mais próximo. E, para completar a seção ESPORTIVA da coluna, preciso dizer que enquanto o Grêmio estará jogando pela sua vida contra a LDU, estarei na COURTSIDE do jogo entre Brooklyn Nets e Miami Heat, com ingressos que me foram agraciados pelo bom coração do povo nova-iorquino.

* Semana passada o André contou como funciona o metrô de NY ;)