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Embaixo da Ponte #7

Por André Araujo

O escritor britânico Nick Hornby tem uma coluna mensal na Believer, revista fundada pelo Dave Eggers e uma das principais publicações culturais de NY, chamada Stuff I"ve Been Reading onde ele, bem, fala sobre as coisas que anda lendo. Numa de suas colunas ele escreveu sobre Just Kids, livro escrito pela Patti Smith que conta sua chegada e desenvolvimento pessoal e artístico em NY.

Nick Hornby, em certo momento, lamenta o fato de não mais existirem cidades no mundo como a NY dos anos 70: barata, perigosa, aberta para novas experiências e experimentos. Uma reclamação justa, concordo plenamente. Porém, assim como ele também aponta, não eram tão naturais e superficiais as oportunidades para vivenciar a efervescência oferecida pela cidade. Tudo corria pelo underground.

Provavelmente não seria qualquer pessoa que entraria no Max"s Kansas City em 72 para assistir uma leitura, ou na fila do CBGB"s ver um show de uma banda desconhecida. Eu possivelmente não teria entrado, assim como Nick Hornby, por uma série de fatores inumeráveis. Era preciso ter uma ideia muito clara da pessoa que se GOSTARIA de ser, de que tipo de cidade morar ou vivenciar, qual o estilo de vida escolher.



Porque parece, no fim das contas, que esse é o grande fato sobre as relações sociais em NY. Aqui todos começam do zero, como uma tábula rasa, prontos para tornarem-se o que quiserem. É uma cidade de forasteiros, de recém-chegados, de estranhos que se agregam sob um signo, que pode ser o da "oportunidade". Muito americano isso, eu sei.

Porém, a ideia de self-made man em NY transcende em muito o velho conto pop-capitalista de que se eu trabalhar duro por tempo suficiente ganharei bastante dinheiro e me tornarei capaz de viver o sonho americano, pois sou LIVRE para isso. Em NY não é apenas essa narrativa que está disponível para ser vivida, mas qualquer uma. Você pode inventar o seu passado e, assim, quem você é.

Ninguém quer saber o seu verdadeiro ser, a sua essência, o que já foi feito. O que importa é o agora. Quem é você em NY? Pois todos que estão aqui são "estrangeiros" e reconhecem no outro alguém semelhante. Estar vivendo em NY já o credencia como uma pessoa interessante, seja por ter escolhido viver aqui dentre todas as outras cidades do mundo, seja pelo esforço ou dedicação de ter conseguido o seu lugar. Você não precisa batalhar para provar que merece viver nessa cidade, você apenas deve tentar não ser um babaca e jogar tudo fora. E os termos para isso são totalmente abertos.



Eu posso decidir, por exemplo, ser um escritor. Vou dizer isso para todas as pessoas que eu conhecer. Todos irão acreditar que sou um escritor e me tratarão como tal, provavelmente como um dos bons, inclusive. Irão me convidar para eventos, leituras, lançamentos de revistas, apresentar para seus outros amigos escritores. Em questão de dois meses, provavelmente, já se estará tão envolvido na vida literária nova-iorquina que talvez você até mesmo esqueça que foi apenas uma decisão arbitrária o fato de ter se tornado um escritor, ao menos aos olhos da cidade.

E não demorará até que se tenha a oportunidade de efetivamente começar a escrever, não é difícil. É claro que nesse ponto é que se separa o joio do trigo. O resultado é claro: ou você dá certo pelo seu próprio talento, ou volta pra casa com o rabo entre as pernas, tendo levado uma TUNDA da maior cidade do mundo. Ninguém terá pena, mas pelo menos uma chance rolou.

Voltando à Patti Smith, dá pra ver que é uma relação próxima e quase indissociável com a cidade. É preciso primeiro ter uma ideia clara do que quer se tornar; não apenas um escritor, por exemplo, mas também qual tipo de escritor. E esse tipo será definido por quais as oportunidades que a cidade lhe oferece. Era possível, nos anos 70, se tornar uma poetisa punk. Era isso que Patti Smith queria ser e foi isso que ela se tornou, indo nos lugares certos, conhecendo as pessoas certas, escrevendo as palavras certas. Mas qual o tipo de escritor que NY pode produzir hoje em dia?

Não há mais um Max"s ou um Bowery ou um LES aberto, disponível para que se possa exercer uma certa boemia artística. NY é uma cidade que se tornou segura demais, no bom e no mau sentido. Se caminha em qualquer rua a qualquer hora sem ter o mínimo tipo de desconfiança. Qualquer lugar é seguro. Nem é preciso saber por onde se anda, é muito tranquilo. É tudo muito Soy Latte e comida orgânica da Whole Foods, muito Shop Local to Support Your Neighborhood e "tu viu quem vai ler na McNally semana que vem?". Por isso a galera da New Yorker e os Jonathan Safran-Foers com seus MFAs debaixo do braço dominam as prateleiras com seus livros profundamente PÓS-MODERNINHOS e perfeitos. Esse é o modelo literário para uma cidade sem crimes. Até os imigrantes, que poderiam se tornar uma voz original na literatura norte-americana, acabam se curvando aos dogmas das oficinais literárias.



 

Sendo minha última coluna aqui no Mais Preza, me permiti tal divagação que tangenciou um pouco o tema. Mas agora estou de volta à Porto Alegre, e posso olhar com distância para o que vi e vivi. Foi como um CALDINHO, como um bom amigo bem descreveu. Você é afogado, fica debaixo d"água por um período de tempo indeterminado, pensa em um milhão de coisas e do nada EMERGE, sem saber muito bem o que aconteceu. Tudo passou muito rápido, ao mesmo tempo em que me sinto longe há dois anos.

Fiz mais coisas em dois meses do que seria possível em cinco anos em Porto Alegre. Fiz uma road trip com grandes amigos, fui no show da minha banda preferida, conheci e interagi com pessoas que fazem exatamente o que eu gostaria de fazer pro resto da minha vida. Tive que me virar sozinho na cidade grande e pude contar como foi pro pessoal da minha cidade (vocês). Pude ir mais de uma vez em todos os museus da cidade, pude esperar para ver exposições que só começariam em um mês, pude ficar sentado olhando para uma tela por mais de uma hora apenas porque tive vontade.

Entrei em pequenos becos, descobri restaurantes, lojas, bares, cafés escondidos, abordei pessoas na rua para pedir informação porque me perdi na cidade mais fácil do mundo. Fiquei horas em lugares públicos sem fones de ouvido, apenas escutando os que as pessoas ao meu redor falavam, tentando entender a dinâmica da cidade. Comprei livros demais, e não me arrependo.

Enchi uns quantos caderninhos com anotações criptografadas de endereços, lugares, ideias, coisas que li e outras bobagens que jamais conseguirei decifrar na minha vida. E talvez sejam esses caderninhos a grande metáfora da viagem. Eram eles que que me guiavam pelas ruas, que me ajudavam a me programar e ter um rumo. Agora, não fazem mais o menor sentido. São apenas rabiscos que só se tornarão compreensíveis quando estiver em NY mais uma vez. Não adianta querer entender o que se passa ou se passou numa viagem, tudo se resume ao tempo e espaço específicos. O que sobra é pessoal demais, inintelígivel até para mim mesmo. Quem sabe no futuro?

* Na penúltima coluna do André, ele contou sobre os bares que visitou em NY ;)