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"Literatura não soa cool"

por Thiago Souza

(O que você fez da vida quando tinha 19 anos? O que você está fazendo? O que você pretende fazer?)

Imagine: duas faculdades em curso, dois livros publicados, dois prêmios importantes e, plim, do nada, sua vida muda. Toda essa reviravolta começa aos 19 anos.

Não há nada de ficção nessa história.

A gaúcha Luisa Geisler venceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2010 na categoria contos com "Contos de Mentira". Ela tinha só 19 anos e, como premiação, teve seu livro publicado pela Record. No ano seguinte, foi bicampeã do prêmio, agora na categoria romance, e viu sua obra "Quiçá" ser editada. Este ano, foi incluída na revista britânica Granta, que reúne os 20 melhores jovens escritores brasileiros.

Hoje, ela cursa duas faculdades e ainda está trabalhando em dois novos projetos: um romance e um livro de contos. Para construir um currículo desses, Luisa não deixou de sair com os amigos nem de namorar. Ela tem só 21 anos e não abre mão de viver como uma guria dessa idade. Dá para se inspirar, né?


Batemos um papo com a moça, no qual ela conta um pouco de sua vida e do seu trabalho, além de falar de livros e deixar umas dicas de leituras pra vocês. Olhem aí:

Quanto tempo você demorou para escrever o livro "Contos de Mentira", aos 19 anos, e como ficou sua vida social durante esse processo?
Essa ideia de livro de contos estava pronta, mas eu escrevi pensando no concurso. Já havia alguns textos prontos e que cabiam nesse conceito, contudo, a maioria deles foi escrita e pensada para o livro, para o conceito de Contos de Mentira. Por isso, estimo que demorei cinco meses, mas não posso precisar. Minha vida social ficou mais tranquila do que parece, eu meio que vou fazendo as coisas em amontoados, mas dá certo… E nunca abri mão de nada, nunca abri mão de sair, de namorar, pra ficar escrevendo. Abri mais mão de ir bem na faculdade (risos) do que de conviver com os outros. Sair dá muito material, sabe?

Quando que você começou a ler como uma "escritora” e descobriu que também poderia escrever?
O gaúcho lê acima da média (apesar de ler pouco e mal). Contudo, creio que a grande quantidade de oficinas por aqui é a maior culpada, pra mim, pelo menos. Eu sempre fui muito fã de ler, mas, após a oficina (que fiz com Luiz Antonio de Assis Brasil), enxerguei as coisas de uma maneira mais profissionalizada.

Como você enxerga a sua geração em relação à leitura? O leitor de Internet consome um tipo diferente de literatura?
A literatura soa chata. Teu professor te obriga, teu pai gosta, teu colega nerd sem amigos passa o tempo todo junto. A ideia de literatura está obrigatoriamente ligada ao conceito de um intelectual. É difícil, exige uma pessoa inteligente. E não é assim. Há literatura pra todos os gostos, pra todos os públicos, há leitores que adorariam produções contemporâneas e ficam trancados em Machado de Assis. O problema é imenso, desde a formação de professores, passando pela formação de leitores até essa questão cultural. As pessoas vêm ao meu quarto e comentam “nossa, quantos livros!” e papagaiam sobre como eu devo ser esforçada e estudiosa. Livros chamam a atenção, não são apenas mobília que todo mundo tem em casa. Ninguém diz isso de CDs. “Nossa, quantos CDs!”, mesmo que sejam muitos, eles são vistos de outra maneira. Literatura não soa cool, o cara da banda de rock não curte, o cara da novela não lê, não é algo que gente normal faz no seu dia a dia. As pessoas “comuns” não querem soar como o nerd. Há essa imagem petrificada da literatura, de que não dá pra ler no trem, de que não dá pra ler sem fazer força. Essa barreira inicial combatida, o leitor nota que não é esse bicho de sete cabeças, o caminho pra leitura flui melhor. Acho que o leitor de Internet cria seus próprios nichos, de acordo com seus gostos. Ele vai se especificando e assim surge uma leitura para os temas pelos quais ele se interessa (fantasia, vampiros, sei lá). Eu acho uma relação boa, na verdade, surge uma forma de troca e comunicação interessante (tipo fóruns e tal).



O que você acha de best sellers como o "50 Tons de Cinza", que já é um dos mais vendidos da Feira do Livro de Porto Alegre?
Não tenho nada contra best sellers, acho que gostar ou não de algo se define por uma questão do momento em que a pessoa está. Fico extremamente feliz que haja essas "ondas" de livros, em que todo mundo para e abre espaço pra livros na vida. Por mais que não sejam temas que me agradem pessoalmente, sei que eles tocam quem lê (mais ou menos, enfim). E é isso que importa. Talvez eu esteja errada no final das contas de não gostar, não?

Como a Capricho descobriu você (ela escreveu para a Capricho de novembro de 2011 até novembro deste ano)? Qual a diferença entre escrever para um público definido – gurias, adolescentes – e fazer literatura adulta?
A Capricho recebeu um release meu, sugerindo que fizessem uma reportagem sobre mim, essa coisa de jovem escritora premiada. Ao invés disso, me contrataram como colunista da página final. Depois de um ano de revista, escolhi sair por querer um foco no público adulto mesmo. Acho que o fato de ser jovem e escrever na Capricho gerava muita confusão entre o que eu fazia nos meus livros, o que era minha abordagem. Escrever pra jovens é ótimo, eu gosto muito, mas precisa ter um foco muito específico nisso.

E, para finalizar, cinco livros que a galera do Mais Preza vai curtir:
Pois bem, recomendo ‘Hoje está um dia morto’, do André de Leones; ‘A sordidez das pequenas coisas’, do Alessandro Garcia; ‘O filho da mãe’, do Bernardo Carvalho; ‘Caixa Preta’, do Amos Oz, e ‘O Último voo do Flamingo’ , do Mia Couto.

 

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