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Pela volta da injustiça e do mata-mata

Por Thiago Souza

Um dos momentos que mais me marcaram no futebol foi um Grêmio x Corinthians no Olímpico (adeus), em 1998, primeiro jogo das quartas de final do Brasileirão daquele ano. Era talvez meu primeiro jogo no estádio – não me recordo muito bem. Com certeza foi o primeiro jogo da minha mãe no estádio – isso eu lembro, porque uma confusão na arquibancada fez com que ela fosse patrolada por alguns torcedores e só voltasse a entrar em um estádio na praia de Cidreira (?), para um jogo válido pelo Gauchão de 2007.

Mas voltemos a 1998: o Grêmio perdeu por 1 a 0 para o Corinthians, gol do volante colombiano Rincón, que acertou um foguete de fora da área. No jogo de volta, no Pacaembu, em São Paulo, 2 a 0 para o Grêmio, dois golaços: um de falta de Itaqui, outro de voleio de Clóvis (nada parecia fazer sentido). Naqueles tempos nem tão longínquos, se fez necessário um terceiro embate para desempatar o duelo, já que tínhamos uma vitória para cada lado e essa bobagem de gol fora de casa não valia nada. Novamente em solo paulista, o Corinthians derrotou os gaúchos por 1 a 0, gol do capetinha Edílson, e avançou.



Conto isso para dizer que o futebol era emocionante em 1998 – e enquanto o campeonato brasileiro era disputado no tradicional mata-mata. Víamos times medíocres (como aquele Grêmio de Celso Roth) dar a vida para acabar a primeira fase em oitavo lugar, no mínimo, segurando na ponta dos dedos a vaga nas quartas – para então respirar e se encher de esperanças novamente. Os melhores times, bem treinados e mais técnicos, empilhavam pontos e brigavam pelas primeiras posições quando não valia muita coisa, mas, volta e meia, eram eliminados pelos mais copeiros no mata-mata. É o caso do Palmeiras em 1998: ficou em segundo na primeira fase e foi eliminado logo nas oitavas de final pelo sétimo, o Cruzeiro, que chegou à final.

Enfim, tínhamos injustiça misturada com paixão, loucura e redenção, a fórmula do futebol – e da vida.

Concordo que o futebol brasileiro era uma bagunça generalizada (e ainda é, não se iludam), e os pontos corridos vieram para colocar um pouco de ordem na casa. Até que conseguiram certa organização no calendário (porém não totalmente: os estaduais ainda são uma praga a ser combatida), seguindo o sistema das principais ligas europeias. Mas mataram a emoção. Vejamos este ano: o Fluminense conseguiu ser campeão com quatro rodadas de antecedência. Faltando três jogos para o fim do campeonato, já temos três clubes rebaixados à segunda divisão e três classificados para a Libertadores em 2013. A média de público do Brasileirão beira o ridículo: 12.901 pagantes. O campeão levou em média 13.016 pessoas ao estádio (podem rir).

Em nome da regularidade, os pontos corridos deixaram o futebol brasileiro chato. Nós, que sempre fomos diferentes, nos submetemos à “modernidade” dos europeus e nos tornamos iguais a eles (lá, sempre os mesmos times, os mais ricos, são campeões). Engessamos. A suposta organização do calendário não ajudou muito a nossa seleção, que já não empolga faz tempo. Não vamos nem falar nas polêmicas convocações do senhor Mano Menezes.



Futebol é uma alegoria da vida: nem sempre é justa, regular e sem surpresas. Ser o “melhor” é relativo. O campeonato do meu bairro, mata-mata, emocionava bem mais que o Brasileirão. O Palmeiras, rebaixado ontem, foi campeão da Copa do Brasil e no ano que vem estará no torneio mais importante da América. Isso é futebol, isso é massa: time ruim se superar, encarar cada partida como a possibilidade real de glória e desgraça, derrubar arrogâncias e rótulos e, no fim, aos trancos, jogando menos que o adversário, erguer a taça – ou não, porque perder assim, com emoção, é mais aceitável.

Futebol é injustiça, é dar chance ao imprevisível, ao inesperado, ao renascimento. Quem quer resultados justos, que ligue a TV e assista ao julgamento do mensalão. Volta, mata-mata.