Oficina de Jornalismo

A Feira de várias línguas

Enquanto cresce o turismo estrangeiro no Rio Grande do Sul, a ala internacional da Feira do Livro de Porto Alegre perdeu espaço. Apesar disso, obras em outras línguas marcam presença em outros espaços

Gael, de 8 anos (E), e Kai, de 9 (D), moram em Lynnhaven, na Flórida, Estados Unidos, e visitaram a Feira do Livro pela primeira vez
Gael, de 8 anos (E), e Kai, de 9 (D), moram em Lynnhaven, na Flórida, Estados Unidos, e visitaram a Feira do Livro pela primeira vez Foto : Augusto Both / Especial / CP

Por Augusto Both e Júlia Vitória (Ufrgs)*

Seja pelas paisagens ou pela cultura, o Rio Grande do Sul e sua capital, Porto Alegre, são pontos turísticos de alta procura estrangeira. De acordo com dados da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), o Estado foi o segundo do país que mais recebeu turistas internacionais nos cinco primeiros meses de 2025, atrás apenas de São Paulo. Nesta 71ª Feira do Livro, não é diferente: o evento acolhe estrangeiros dos quatro cantos do mundo.

A gaúcha Marina Boeira, de 42 anos, mora nos Estados Unidos há 20 anos, e trouxe o marido e os dois filhos norte-americanos para conhecer o evento. Apesar de estar fazendo sua terceira viagem ao Brasil, esta é a primeira vez de Eric, de 52 anos, e dos filhos Kai, de 9, e Gael, de 8, na Feira do Livro de Porto Alegre. As crianças ficaram surpreendidas com a quantidade de bancas.

Natural de Taquara, Marina explicou que a família está passando uma temporada no Brasil para os pequenos aprenderem o idioma materno, e aproveitou a passagem para conhecer este tradicional evento que marcou a infância dela. O pai, Eric, garante que ele e os filhos sempre ouviram Marina falar sobre o evento. “Uma grande oportunidade para todos os amantes da leitura. É muito bonita”, completou.

Esta edição da Feira, que termina neste domingo (16/11), conta com uma área internacional. O setor, que esteve ausente em 2023, voltou em 2024 com três estandes e, neste ano, repetiu as presenças do último ano: Instituto Cervantes/ Sur Livro; Aliança Francesa Porto Alegre; e Livraria Paisagem. Apenas dois, no entanto, comercializam obras estrangeiras - o Instituto Cervantes e a Livraria Paisagem.

Apesar do retorno no ano passado, o setor teve um considerável declínio em relação a série histórica. Há 20 anos, o espaço chegou a ocupar toda a avenida Sepúlveda, ao lado da Praça da Alfândega. Na época, o evento destacava um país ou nacionalidade em cada edição. A Itália foi a homenageada em 2005, ano em que a imigração italiana no Estado completou 130 anos. Dez anos depois, o número ainda era 62,5% maior que neste ano, com oito bancas.

João Cervo, vice-presidente da Câmara Rio-grandense do Livro, organizadora do evento, explica que esta condição se apresenta pela dificuldade de importação das obras e pelo crescimento do comércio delas pela internet. “Hoje nós estamos com dois expositores, nós chegamos a ter 10. Mas é uma questão estritamente comercial”, conclui.

Obras estrangeiras na área geral

Apesar da pouca presença de estandes na área internacional, os livros estrangeiros ainda podem ser encontrados fora dessa sessão. É o caso da banca Calle Corrientes. “Nossa especialidade são os livros em língua espanhola. Somos aqui em Porto Alegre a única livraria especializada em espanhol”, comenta Miguel Gómez. O argentino faz parte da Feira desde 1996, um ano após a inauguração da livraria, e já chegou a participar da sessão internacional, mas hoje está presente na área geral por também comercializar obras brasileiras.

A presença de livros estrangeiros no evento não é novidade. A Feira, que começou com apenas 14 barracas de madeira, que ocupavam o espaço da Praça da Alfândega em 1955, nesta edição, conta com 79 bancas que vendem livros para todos os gostos. São mais de cinco bancas oferecendo ao menos uma edição em outro idioma.

“É importante ter livros em outras línguas para influenciar o desenvolvimento e aprendizado de um novo idioma”, explica Samuel Júnior, livreiro da banca Santos. Além do conhecimento adquirido para os leitores, as bancas também se beneficiam. “Os livros mais vendidos nessa banca são dessa edição em inglês”, afirma Samuel. “Eles são nosso carro chefe nessa edição na feira”, completou.

Para Luciano Oliveira, livreiro da banca Leitura, o motivo da boa venda dessas edições é o fato de que a Feira tem capacidade de trazer um público que sempre se renova e procura coisas novas. “É o caráter da Feira de tornar acessível a literatura para as pessoas que possibilita essa alta procura por esses livros, principalmente essa edição luxuosa por um bom preço.”

Além das obras ofertadas nas bancas, o evento este ano conta com a participação de 17 escritores e autores internacionais que compareceram a palestras, roda de conversas e sessões de autógrafos.

Apesar da desvalorização da sessão internacional, dedicada à exposição e disseminação da cultura de outros países, a Feira do Livro de Porto Alegre continua sendo um espaço para propagar a literatura de outras partes do mundo. Da mesma forma que os livros refletem o âmago da sociedade que os produzem, as bancas da Praça da Alfândega devem retratar a cultura de seu povo, e nada mais brasileiro, gaúcho e porto-alegrense que a pluralidade de bandeiras.

A Oficina de Jornalismo - Talentos do Futuro - é uma realização do Correio do Povo com o patrocínio da Corsan. Nossa natureza movimenta o Rio Grande. Apoios Ulbra "É Ultra, é Única, é Ulbra" e CIEE-RS "somos integração, inovação e possibilidades".

*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier

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