Oficina de Jornalismo

Chuva na Praça


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   São quase seis da tarde e é hora de ir embora. Saio da redação do Correio e vou em direção a Praça da Alfândega. Quantas vezes Mário Quintana não fez aquele mesmo caminho? Sopra um vento firme, as lonas das barracas da feira do livro se levantam, "algo está por vir", pensei.


   Olhando para trás, na direção do gasômetro, vejo o horror. Uma super núvem negra, (talvez seja uma Cúmulus Nimbus, sei lá), corre na minha direção e, embaixo dela, água. Muita água. Toró.


   Corro para o corredor coberto. Estou salvo, por enquanto. Não fui o único. Alunos de escolas, jovens e senhores, transeuntes da praça buscam refúgio na feira.


   Entre uma olhada e outra nas bancas, consigo ouvir as conversas, abafadas pelo barulho da chuva nas lonas. -Credo, que chuva é essa! Dizia uma senhora. -Fazia tempo que não via uma assim, retrucou outra. Lembrei da previsão do tempo no rádio de manhã cedo. O apresentador disse que ia fazer sol no final da tarde. Nota mental: não acreditar mais neles.


   Ali, protegido, consigo ver a Rua da Ladeira, ou Rua da Corredeira, na atual situação. Tenho a impressão de ter visto um jacaré nadando na correnteza. Tavez estivesse interessado em buscar algum livro de Victor Hugo. Ou, só de algum youtuber mesmo. O piso da feira começa a alagar. Uma leve corrente de água surge no calçamento de pedras portuguesas. É a correria dos livreiros. Puxa daqui, empurra de lá, em segundos, estantes e os "saldões" estão protegidos. Infelizmente, livros estragam se estiverem em contato com a água. Nunca saberão o que é um bom banho de chuva.


   Mas voltando a feira, o pessoal se encolhe num canto do corredor, esperando o momento certo para se aventurar no aguaceiro, fugindo do campo minado de poças no chão. -GUARDA-CHUVA E SOMBRINHAAAA! É MAIS BARATO QUE GRIPEEE! Gritava o ambulante. -Eu quero um guarda-chuva, pede a menina. -AGORA SÓ TEM SOMBRINHA, SOMBRINHA, MAIS BARATO QUE GRIPEEE!


   No meio da lagoa, que um dia foi praça, alguns poucos se arriscam a atravessar. Nunca antes (talvez já), o nome "Rua da Praia" fez tanto sentido. O relógio não para. Compromissos não esperam. Tenho que sair daquela bolha literária e voltar para a realidade molhada dos Andradas.


   Planejo o meu caminho. Vou tentar as marquises, os pontos mais altos e inclinados. Abro o meu guarda-chuva e saio na natureza selvagem. Quinze segundos. Esse foi o tempo que meus pés aguentaram. Um quarto de volta no relógio depois minhas botas e meias estão ensopadas. Me sinto andando em uma bacia. Fracassei na missão. Só me resta andar, resignado, molhado.


   De repente, tomo um tapa na cara. O velcro do guarda-chuva chicoteia e respinga água direto no meu rosto. Pronto. Agora acabou a dignidade. Fecho o guarda-chuva e decido que mereço toda aquela tempestade na cabeça.


Texto e foto: Pedro Brum