Oficina de Jornalismo

Conversa com a Patrona





Jane Tutikian: Ser patrona da Feira do Livro, indiscutivelmente, é a maior homenagem que um escritor gaúcho pode receber, estava na hora de ter uma mulher patrona. Não é que seja sexista ou feminista, não levanto nenhuma dessas bandeiras, mas as mulheres vêm dando uma contribuição super importante para a literatura gaúcha, brasileira e internacional e aí não pode haver essa diferença muito grande.
Não são só os homens que são bons escritores. Nós temos uma geração de mulheres produzindo muito aqui em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, e com muita qualidade. Espero que essa minha passagem pela feira como patrona abra uma porta no sentido de que nesse século mais mulheres sejam patronas.

Quem poderia ser a próxima patrona da Feira do Livro, na sua opinião?


Jane Tutikian: Tem tanta gente tão boa! Na poesia, temos a Maria Carpi, na narrativa, a Valesca de Assis, a Cintia Moscovich. Nos trabalhos literários, a Regina Zilberman, Maria da Glória Bordini. Estou citando algumas, mas tem muita gente boa, produzindo muito e com qualidade.

Por que te chamam de Patrona e não Patronesse?

Jane Tutikian: Foi muito engraçado. No dia em que foi anunciado o patronato, houve uma grande discussão na universidade. Ainda tem uma terceira possibilidade, que é Padroeira. Quase que eu escolhi padroeira, acima do bem e do mal (risos). Então, pode ser os três, patrona, patronesse ou padroeira. Mas padroeira tem, tradicionalmente, um sentido lúdico, religioso e ficaria descartado. Patronesse ficou descartado por estar muito ligado aquelas coisas de benemerência. Então, escolhi patrona.

Tu já foste patrona em outras Feiras do Livro, qual foi a que mais te marcou?


Jane Tutikian: Todas, as pequenas e as grandes. O patronato sempre marca muito porque as pessoas são carinhosas, afetivas. Elas vêm, abraçam, contam historia. Tem uns que acham que eu sou uma editora e pedem ajudar para publicar um livro. Acho que todas as feiras têm as suas particularidades. Eu sempre fui muito bem acolhida pelas cidades onde fui patrona.

Como e quando surgiu o gosto pela literatura?


Jane Tutikian: Surgiu muito cedo. Tenho na minha casa um poema que eu fiz pro meu pai quando eu tinha oito anos de idade. É evidente que não tem nenhum valor literário, mas se eu pensar na idade, e que eu estava na segunda série, eu percebo que já tinha uma relação forte com a palavra escrita e a partir daí ela faria parte da minha vida, como realmente fez.
Agora tem imagens e situações que me marcaram muito, a minha mãe era costureira e estudou só até a segunda série do fundamental, meu pai era guarda de trânsito e se alfabetizou sozinho com 21 anos. Então, o dinheiro era curto e não tinha livros à disposição, mas a minha mãe era uma eximia contadora de historia. E muitas vezes eu surpreendi meu pai, escrevendo em papel de pão - na época, o pão vinha enrolado em papel pardo, e eu acho que isso tem a ver com o gosto pela literatura.

Daí em diante só premiações?


Jane Tutikian: Aí veio uma fase muito boa, de vários prêmios, um pouco assustador também. Quando eu ganhei o prêmio Jabuti com o segundo livro, foi assustador porque a impressão que eu tinha era de que as pessoas sempre iam me cobrar outro. Mas, enfim, deu para superar o trauma do Jabuti (risos).

E houve essa cobrança?


Jane Tutikian: Houve sim, teve gente que me perguntou “será que vai conseguir escrever outro livro?”, “será que virá com a mesma qualidade?”. Mas tudo deu certo.

Além de assustadora, essa cobrança também te motivou?


Jane Tutikian: Eu sou Touro (signo) com ascendente em Touro. E Touro é muito teimoso. Então, ao mesmo tempo em que foi assustador, também foi estimulante.

Muitas das tuas obras são voltadas ao público infanto-juvenil, o que te atrai a escrever para eles?


Jane Tutikian: Eu entrei sem querer na literatura juvenil. Nunca foi meu projeto escrever tantos livros para adolescentes, e hoje metade dos meus livros são para eles. A outra metade é para adultos. Escrevi uma novela e mandei para a editora, na década de 1980, então a minha novela foi uma pioneira dentro da literatura infanto-juvenil, porque é na década de 1980 que a gente começa a falar em literatura juvenil. Antes disso, Érico Verissimo tinha escrito Clarissa e Música ao Longe. Ninguém diz que é literatura juvenil, mas de fato é, pela temática, pelos personagens, pelas circunstâncias todas e pelos conflitos, é novela juvenil. Eu acho que no terceiro livro para adolescentes foi que eu descobri que eu realmente gostava de escrever para adolescentes.

Cada adolescente é uma caixa de surpresa, é o sujeito que vê o corpo modificar a cada dia, que vê a voz modificar, que tem vergonha e orgulho de si mesmo. É um sujeito cheio de dúvidas e cheio de razão. Ele é cheio de contradições. Então, o adolescente é extremamente rico nesse sentido, e muito espontâneo, o que é uma coisa legal.
Aí, a partir do terceiro livro eu me dei conta do que eu realmente queria fazer - e desde 1981 que eu to na estrada com esse projeto, como o autor presente. Hoje isso alimenta o texto que eu escrevo para eles.Eu discuto o que estou escrevendo, digo das minhas dificuldades de escrever, eles me dão palpite. É um barato. Por exemplo, eles pediam um livro sobre o “ficar”, e eu ficava com problemas porque a minha geração não é uma geração “ficante”. Então, eu tive que conversar com eles durante um ano inteiro, pesquisar intensamente, para poder escrever um livro sobre “ficar”.
Quem me deu o título, “Fica ficando”, foi uma menina de Guaíba. E quando eu voltar a apresentar um livro infantil, eu não mandarei primeiro para a editora, acho importante ter a opinião de outra pessoa. Me correspondo com adolescentes de todo o país, então eu escolho aleatoriamente seis e mando (cópias). Eles me dizem o que eles acham e a gente pode discutir. Só depois envio para a editora. Tem sido uma experiência fascinante a descoberta do adolescente.

É fácil ou difícil agradar este público tão contraditório?


Jane Tutikian: É fácil. Eu acho que, fundamentalmente, eles têm a mesma exigência que os adultos, a gente precisa se reconhecer no livro pra gostar. E os livros para adolescentes também têm a mesma exigência. Não faço nenhuma concessão em termos de estilo, eu escrevo como escrevo para adultos: não tem gírias, não tem língua oral, nada disso que eles usam. Eu uso o português “culto”, mas as personagens são adolescentes, a psicologia das personagens é adolescente e o mundo é adolescente - e eles terminam se reconhecendo. Acho que é por isso que eles vêm se reconhecendo, e é por isso que tem funcionado.

Estamos entrando na era dos livros digitais. Na sua opinião, o que isso altera na relação das pessoas com a leitura?


Jane Tutikian: Como toda a nova tecnologia, depende do uso que a gente der a ela. Por exemplo: como profissional de universidade, eu tenho percebido as pessoas dizerem que estão lendo mais por causa da internet. Não, é um engano dizer isso, e eu não sei a quem estamos enganando. As pessoas lêem mais resumos, mais trabalhos prontos. Então não é verdade que estão lendo mais e desenvolvendo censo crítico por causa da internet.
O livro em papel não vai desaparecer, o homem levou séculos para chegar à escrita, séculos para chegar ao papel e ao livro. O que isso quer dizer? Quer dizer que cada livro, por mais simples que seja a edição, é parte do patrimônio cultural da humanidade. O que nós temos que fazer é saber que o livro existe em outros formatos.

Tu tens um Tablet?


Jane Tutikian: Eu tenho um tablet e baixei dois clássicos da literatura para meus netos - uma menina de 2 anos e meio e um menino de 1 ano e meio. Da literatura universal, Alice no País das Maravilhas e da literatura brasileira, Relações de Narizinho. A ilustração é fascinante, ela permite que a criança entre na história. Por exemplo, tem um momento que Narizinho tem dois insetos no nariz e quando a criança toca o nariz da personagem ela espirra e os insetos caem, tem essa interação que é bem legal.
No primeiro dia, a Duda (neta) ficou enlouquecida, mas depois de um tempo, aquilo passou a se tornar repetitivo, é tudo sempre igual. Daí é curioso por que a Duda tem um baú de livros e ela escolhe um determinado livro para eu ler - e nós passamos semanas com a mesma história. Só que quando tu lês, dá uma possibilidade maior à imaginação, então nunca é a mesma história. É na cabecinha dela que as coisas são armadas a imagem do livro não é entregue pronta. Embora fascinante para nós adultos, para esse público não é tanta novidade assim. E, se para comprar um livro é caro, comprar um tablet é muito mais caro.

Que dicas tu darias para os novos escritores?


Jane Tutikian: Eu acho que aquele que quer ser escritor primeiro tem que ler muito, escrever muito e não ter vergonha de mostrar seu trabalho para ninguém. Terminou a era do escritor despreparado, isso terminou e não tem volta. Por isso, que tem essa proliferação, por exemplo, de oficinas. Hoje nós temos editoras que já estão percebendo isso e que quando o jovem escritor manda originais de qualidade, elas já trabalham da seguinte forma: têm um carro chefe, que é um escritor consagrado que garante o funcionamento da editora, e esse carro chefe permite que se invista em novos autores. Eu acho que o mercado está se abrindo, já foi muito mais difícil.

Que recado mandaria aos visitantes da Feira do Livro?


Jane Tutikian: Não seria leiam e olhem os livros - não precisa dizer isso para quem vem à feira. O meu recado é de agradecimento por todo o carinho, gentileza e atenção que tenho recebido como patrona. Lá no inicio, quando anunciaram o patronato, me perguntaram o que eu queria para a feira e eu disse: quero que seja alegre e afetiva. Estamos chegando ao final e eu vejo que isso tem se concretizado.

Por Anselmo Cunha


Foto: Marcelo De Franceschi