Oficina de Jornalismo

Elas contam a História da Feira

Marcia, Sandra e Jussara, rostos conhecidos da feira do livro - e dessa vez não foi diferente

Marcia Martins, da Martins Livreiro Editora, participa da feira desde que tinha 14 anos, em 1974
Marcia Martins, da Martins Livreiro Editora, participa da feira desde que tinha 14 anos, em 1974 Foto : Gustavo Marchant / Especial / CP

Por Gustavo Marchant * (PUCRS)

Marcia Martins, um legado de pai para filha.

Marcia Martins, da Martins Livreiro Editora, participa da feira desde que tinha 14 anos, em 1974. Por coincidência, hoje completa 50 anos presente na Praça da Alfândega. Influenciada por seu pai Manoel dos Santos Martins, apaixonado por livros. Ele montou sua banca em 1954, na primeira edição, e hoje sua filha carrega seu legado.

Hoje editora, Marcia comenta que os autores o motivam a vir todo ano para a feira, para que os seus trabalhos sejam reconhecidos e postos em evidência. O nicho da editora são títulos gauchescos, o acervo é gigante e de todos os temas que se possa imaginar relacionados ao Rio Grande do sul, de folclore, guerra até claro, a boa literatura gaúcha.

Ela conta que a feira carrega surpresas e que sempre acontece alguma história inusitada, desde quem vai à banca e pergunta se tem aquele livro da capa amarela - imagine quantos tem. Ou a vez em que um rapaz ficou minutos namorando um livro da banca e logo ela percebeu que ele não teria condições, então deu-lhe de graça o livro e 5 anos mais tarde ele apareceu para agradecer a gentileza, Marcia conta que hoje ele é um grande advogado. Para ela, momentos como esse são os mais gratificantes e destaca: “A Martins Livreiro vem aqui, claro, para vender livros, mas ela também tem essa sensibilidade de saber quando o leitor realmente precisa daquela literatura.”

Márcia percebe uma mudança relacionada ao perfil do leitor das primeiras feiras para as de hoje em dia: “Antigamente as pessoas vinham a feira porque gostavam da leitura, e voltavam em outros dias porque amavam os livros, hoje não, as pessoas compram por impulso muitas vezes da mídia ou por influência de algum amigo e esses livros acabam não fazendo sentido para a vida deles.”

Ao ser perguntada se passou por algum desafio ou episódio por ser mulher, foi incisa ao dizer que o preconceito está em cada um, não se deve olhar a quem, apenas fazer um trabalho bem-feito para ser notado.

Marcia sente muito orgulho da sua trajetória de vida que está intrinsecamente ligada com a Feira do Livro de Porto Alegre, foi onde conseguiu criar seus filhos, ter uma belíssima família, além de colegas, amigos, e muita gente que não se encontrava há muito tempo

Ela faz mais de 15 feiras durante o ano por todo o estado, sendo a Expotchê, em Brasília. Por mais que seja uma correria, esses eventos a fazem se sentir dentro de uma biblioteca, onde vai aprendendo todo dia. Seu pai criou a Martins Livreiro limitada pois quando era criança era fascinado por jornais, logo pediu emprego de office boy em uma banca perto de casa para ajudar em casa. E desde então, após entregar muitos jornais, o trouxe um contato com a cultura o levou a ter um estalo: o jornal é o primo do livro. O que levou ele subir de cargo na livraria, virou balconista e, após um tempo, decidiu abrir sua própria livraria de livros usados, em uma pecinha na Duque de Caxias, depois migrou para a Riachuelo onde o negócio deslanchou e se encontra até os dias de hoje.

Jussara Nunes Martins, a livreira mais longeva da Feira do Livro de Porto Alegre.

Jussara, dona da banca Nunes Martins, começou a trabalhar com 14 anos, na livraria do Globo, em 1966, na 12ª Feira de Porto Alegre. Ela ficou 30 anos na empresa, começou como balconista e foi escalando até chegar a supervisora geral das lojas, onde chegou a comandar uma equipe com mais de 300 funcionários. Jussara comenta com muito entusiasmo a sensação única de dividir pelos seus primeiros 30 anos de feira o mesmo espaço da sua principal inspiração literária e que se tornaria um grande amigo, o poeta Mário Quintana.

Hoje ela, aos 72 anos, nota principalmente o crescimento do evento. Na primeira edição que participou havia apenas 14 bancas, já houve 140, mas, em razão da pandemia, hoje a feira conta com 72 bancas. A questão da quantidade de projetos culturais também é um movimento percebido por ela, nessa edição tem mais de 1000 atrações, além de mais de 10 escritores internacionais.

Perguntada sobre a morte do livro físico por conta do boom da internet, ela menciona que ainda acredita no papel, ainda que concorde que no futuro o digital irá vencer, e comenta rindo: “Mas ainda vai levar um bom tempo para o papel ser descartado – espero eu.”


Sobre conselhos e dicas a iniciantes na feira ela destaca com veemência: “Atendimento é tudo, o cliente gosta de ser atendido, ele gosta de conversar, não ser atendido por um robô, a conversa é tudo, conversamos com todos os nossos clientes.” A questão geracional também é fruto do bom atendimento de Jussara - muitos voltam - ela atendeu pais, filhos, netos e até bisnetos. Às vezes não compram nada, apenas aparecem para dar um oi e agradecer a gentileza costumaz.

Ela brinca que todo ano ameaça se aposentar, mas chega mais uma edição da feira e novamente Jussara está lá. Como uma amante dos livros não consegue parar por conta deles, menciona ainda que só quando morrer irá abandonar a feira. Seu genro que a acompanhava na banca brincou que ela irá morrer em uma edição feira do livro.

Sandra La Porta, a coordenadora da programação dedicada ao público adulto comenta os bastidores do evento

Ela que hoje tem 77 anos, dedicou os seus últimos 24 para a Feira do Livro de Porto Alegre. Dentro do ambiente cultural ela nunca sofreu pressão por ser mulher por coordenar a feira, mas destaca o papel necessário da inclusão e diversidade na Feira.

Ela comenta que há momentos que ela tem um enorme apreço e que a feira lhe concedeu, ela teve a oportunidade de trazer grandes escritores internacionais e nacionais, como Eduardo Galeano, Guillermo Arriaga, Affonso Romano de Sant'Anna, Marina Colasanti, Valter Hugo Mãe, Vitor Ramil, Hique Gomez, Kleiton & Kledir e neste ano Rita Von Hunty. Sugerido por Sandra, neste sábado (16), no Teatro Petrobrás Carlos Urbim acontecerá a exibição de um documentário de memória sobre a Feira do livro produzido pela ESPM, as 19 horas.

A chegada da tecnologia e a presença cada vez maiores foram as principais mudanças notadas por Sandra, nesta edição 44% das participações no geral para o público adulto são compostas por mulheres, em 2023 houve 50%, não fugindo dessa oscilação. Ela destacou a presença de cada vez mais minorias conquistando seu espaço na feira, coisa que não se via antigamente, hoje, com o passar dos anos temos na feira um amplo leque de livros de literatura negra, indígena e LGBTQPIA+. A coordenadora acredita que o propósito da feira é criar leitores e fazer com que ler livros se tornem hábito na rotina das pessoas.

Para quem quer seguir na vida de livreiro(a), Sandra aconselha ler muito, e participar de oficinas tanto na sua cidade quanto online, para quem quer escrever, editar ou diagramar. Ela tem muito orgulho de fazer parte da Feira do Livro de Porto Alegre e até brinca: “É uma grande paixão, é um vírus que contamina e nunca mais cura. Tenho o mesmo entusiasmo e alegria de quando organizei minha primeira edição”.

*: Estudante participante da Oficina de Jornalismo do Correio do Povo, Rádio Guaíba e Record Guaíba, com patrocínio da Corsan.