Por Mariana Reis (Ufrgs)*
“Porque tem vezes que eu não consigo dormir, daí eu posso ler esses livros para poder dormir”, disse Mateus Doeber, aluno do 2º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Gabriel Obino, para responder o motivo de escolha dos livros “O Pequeno Príncipe”, “Um Conto de Pedro Coelho” e “Os Três Porquinhos”, na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre.
Mateus foi um dos 7 mil estudantes contemplados com o auxílio de R$ 60,00 para compra de livros na Feira. Alunos de 1º e 2º ano do Ensino Fundamental da Rede Municipal da Capital podem, acompanhados de seus professores, ir até a Feira do Livro e pegar um cartão com o auxílio.
Esta iniciativa é uma ação do programa Alfabetiza+POA, da Secretaria Municipal de Educação (Smed), que visa garantir a alfabetização plena de crianças até o 2° ano do Ensino Fundamental. O programa, criado em maio deste ano, tem a proposta de elevar a taxa de alfabetização dos atuais 40% para 75% dos estudantes ao final do segundo ano, representando um avanço significativo na educação básica.
A ação na Feira do Livro busca auxiliar no processo de alfabetização nos anos iniciais, ampliar o acesso à literatura e incentivar o hábito de leitura dentro e fora da sala de aula. O secretário municipal de Educação de Porto Alegre, Leonardo Pascoal, explica que o auxílio visa não só distribuir livros, mas também proporcionar às crianças a vivência completa da Feira do Livro.
“Explorar as bancas e escolher o próprio livro é essencial para despertar autonomia, curiosidade e amor pela leitura, valores que contribuem diretamente para o processo de aprendizagem”, disse o secretário.
Para Sarah Paim, professora da Escola Gabriel Obino, a ação de permitir a autonomia na escolha dos estudantes é a parte mais valiosa da ida até a Feira do Livro esse ano. Apesar de suas próprias preferências sobre quais livros os alunos deveriam selecionar, deixou que as crianças escolhessem.
“Livros com conteúdo mais pedagógico nós temos na biblioteca da escola. Aqui eu deixei que eles pegassem aqueles livros os quais eles não têm muito acesso, livros que são pop-up, com quebra-cabeça, livros que normalmente eles não comprariam”, comentou Sarah.
Mas há restrições sobre quais livros as crianças podem pegar utilizando o cartão. Os livros escolhidos precisam conter literatura, restringindo obras de colorir e álbuns de figurinha. Ligia Manzoni, livreira que trabalha com feiras do livro há 20 anos, relata auxiliar na escolha dos estudantes, direcionando eles para livros com mais texto, como a série “Diário de Um Banana”.
Livros interativos
A professora Thaisa Rodrigues, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Aramy Silva, percebeu que seus alunos demonstraram maior interesse por livros interativos ou com personagens que eles já conhecem e gostam. Esse foi o caso de Caio Nascimento, aluno do 2º ano da escola Aramy Silva, que escolheu um livro de Gravity Falls por ser seu desenho favorito.
Já Lívia Gonçalves, aluna do 1º ano da mesma escola, escolheu o livro “Alice no País das Maravilhas” porque gostou da capa. Outro fator que afeta a escolha das crianças é o tempo disponível para buscar e selecionar seus livros. Na segunda-feira (10) foram nove escolas municipais presentes na feira para retirar os cartões e comprarem livros, totalizando 835 estudantes.
O processo é mais demorado do que normalmente seria uma compra de livro. Além de retirar o cartão na banca da Smed, a criança deve utilizar os números de seu CPF como senha. No entendimento de Suzana Nagel, livreira da Editora Cassol, o processo de pegar o cartão e senha de cada aluno individualmente dificulta o funcionamento pleno do projeto.
“Pela quantidade de alunos e pelo tempo limitado que as escolas têm, é inviável utilizar os CPFs como senha. Muitas professoras tiveram que mandar as crianças pra escola e ir de uber depois, pra conseguir levar os livros”, contou Suzana.
O secretário Leonardo Pascoal manifestou sua vontade de ampliar o projeto para outros anos e oferecer o auxílio para um número maior de crianças no futuro. A professora Sarah Paim expressou seu desejo de que o projeto continue. “São crianças que, normalmente, viriam só passear, mas não levariam livro para casa. Com esses R$ 60,00 , eles puderam escolher, ver as preferências, então foi uma experiência muito positiva”, disse Sarah.
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*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier