Deve ter sido algum erro de semântica. Quando o Ministro diz: “É um jargão que foi adotado pela população, que a polícia prende e o Judiciário solta. Eu vou dizer o seguinte: a polícia prende mal e o Judiciário é obrigado a soltar”, ele não pode estar falando sério. Deve ter algum sentido figurado, ou foi recortado do contexto e aproveitadores editaram, ou ele chegou no país há alguns dias e pensou que estava na Suíça. Só pode ser isto. Embora, desde que Russeau atribuiu à Maria Antonieta a famosa fala que recomendava ao povo que, “se não têm pão, que comam brioches!”, tudo parece acreditável vindo dos convivas desses palácios que nos comandam. Dia desses o presidente não nos disse para, se acharmos a comida cara, simplesmente não comprar? Bora comer vento! Insisto: há gestores públicos que precisariam de um curso de realidade brasileira. Enfiar o pé na lama. Mas de verdade, não vale nem EAD. Viver no meio do povo, como o povo, entendendo o que o povo passa. Sem aparatos de segurança ao redor e trajetos pré-determinados para apenas passar e acenar (trajetos esse que eles mandam a polícia “limpar” antes, para as excelências não correrem riscos). É muita desconexão com a realidade. De doer.
Eu precisaria não o espaço de uma coluna no jornal, mas uma enciclopédia inteira para narrar apenas as prisões corretas realizadas só nestes últimos dias, pelas diferentes polícias brasileiras, todas elas cumprindo o rigoroso protocolo de exigências legais para que se configure um flagrante, mas os delinquentes ficaram livres, leves e soltos para voltar a cometer suas violências de praxe. Crianças são abusadas, mortas, pessoas são assassinadas para terem o seu celular roubado (outra frase ímpar do presidente, que não aguenta mais a polícia pegando no pé de quem quer “apenas” roubar um celular - a viúva do ciclista paulista deve sentir o quê, quando ouve isso?) todos os dias neste país por criminosos que já foram presos pela polícia, e presos mais de uma vez, e presos dentro de todos os requisitos legais, mas não ficaram presos pelas interpretações mais insanas e pelos amparos legais mais ridículos. O caso “famoso” mais recente foi o “arrependimento” sobre o relaxamento da prisão, em flagrante, de um homem no Paraná que mantinha esposa e filho de 4 anos em cárcere privado há meia década. Tem que andar muito fora do mundo real para não saber o que acontece neste país.
A educação pública não funciona por culpa do professor? Não. Mas dos péssimos gestores. Professores fazem milagres. E a educação enfraquecida alimenta a fábrica de bandidos brasileira. O mesmo podemos falar da saúde pública. Mas talvez exista um quê de razão na fala do Ministro: a polícia deve prender melhor, mesmo. Prender mais os grandes bandidos engravatados, que vilipendiam diariamente esta nação, há séculos. Prender mais conforme a vontade do povo, e não dos legisladores, até porque estes parecem gostar do circuito de impunidades que permite mil escapatórias para não responder por seus crimes, e assim legislam em causa própria. E a prisão policial deveria ser igual à anestesia: doer na hora, para aliviar as dores da cirurgia necessária à resolução do problema. Nosso povo seria mais feliz. Mas, à imensa maioria honesta e dedicada dos policiais brasileiros, além dos votos mais profundos de respeito, admiração e apoio dos cidadãos que sustentam com seu suor esse circo nacional, vai a mensagem única que cabe nesta hora: perdoai, eles não sabem o que dizem. De verdade. Culpa nossa.
