
Em homenagem ao ingresso do Brasil de Pelotas na Série B do Brasileirão, toda semana, no blog, apresentaremos ao leitor histórias de paixão e alegria contadas pelos torcedores Xavantes, a maior e mais fiel torcida do interior gaúcho.
Ser Xavante, Crime Passional!
por Leandro GonçalvesO ano era 1991. Sábado de outono e futebol na Baixada.
Fomos pro mocotó do Cruz de Malta da XV perto das 12 horas. Fazer o esquenta.
Íamos a todos os jogos, sempre de turma (Carleans, Gugu, Schuch, Caldeira, JR, Flávio, Gil Bandeira, eu...). Começávamos em quatro ou cinco e na saída do Cruz já eramos mais de dez. Descíamos a Princesa Isabel bem próximo ao horário do jogo, que naquele dia era às 16 horas. Cheiro de churrasquinho no ar e várias filas que levavam ao mesmo portão de acesso ao Bento Freitas. "Clássico": Brasil X Taguá pelo Gauchão daquele ano, que nada tinha de "charmoso" - a bola era só um osso e um pitbull de cada lado tentando tomá-lo pra si. Coisa feia quando chegavam perto do alambrado da charanga. A massa gritava: "é esse, é esse, é esse!".
Brasil X Taguá?! Eu poderia ter ficado em casa com meus filhos pequenos. Mas não, estava lá dentro: "sô! sô rubronego eu sô!". Ficávamos ao lado das Organizadas, nem muito perto nem muito longe, ali. Enfim, um jogo dentre tantos que fomos, em casa e fora de Pelotas.
Na segunda metade do primeiro tempo veio a tragédia! Um torcedor, que eu vi quem era, atirou um objeto dentro do gramado. Isto, naquela época já, era um problema pro mandante. Alguns brigadianos que estavam por ali viram de onde o objeto foi arremessado, mas infelizmente não viram quem arremessou, subiram as arquibancadas como só eles podem e pegaram "o cara".
O cara errado.
Eu vi que pegaram o cara errado e gritei: "Não é esse!". Pronto! Ele se viraram pra mim e disseram: "Fica quieto senão te levaremos também!" Deu! Eu repliquei na hora: "Então vem! $#@&.".
Pronto! Me levaram. Preso. Mas preso mesmo, torceram braço até minha mão tocar minha própria nuca. Eu era um contorcionista e não sabia. Atravessamos toda extensão do meio campo e da linha de fundo com a torcida gritando: "Larga ele, larga ele!". Não adiantou. Só me largaram dentro do camburão que já estava ligado à frente do estádio. Quadro da dor. Dentro do camburão, um sargento quase se aposentando me olhava com uma cara tipo: "O que tu aprontou?!". Seguimos até a delegacia de policia com o camburão - que era uma Veraneio - a toda e, ainda por cima, com a sirene a milhões. Cheguei na delegacia e, até que eu provasse que focinho de porco não era tomada, já havia um registro de ocorrência com o meu nome estampado: Meliante. Desacato a autoridade.
No final das contas, acabou tudo bem, meus "diversos advogados" chegaram na delegacia e livraram minha cara daquela situação, acho que até a ocorrência nunca existiu. O brigadiano que me levou preso acabou comendo um alegre e fraternal cachorro-quente conosco num bicão da Avenida dizendo: "Não posso beber, estou de serviço".
O saldo disso tudo é que não vi todo o jogo e nem do resultado eu me lembro mais.
Sigo torcendo pelo GEB, agora mais distante, aqui em Montenegro/RS, da mesma forma de quando cometi esse crime passional que é ser Xavante.
Foto abaixo, de Carleans Brito: 1990, ensaio do Grupo Alto Nivel, Carleans na troca da corda do cavaquinho, Jose Luiz Lamas Junior na percussão,s Gil Bandeira, Leandro Gonçalves e Pés de Pano, Jorge Schuch e Jose Luiz Lamas Junior.

