Dentre as palavras pejorativas mais corriqueiras, ou seja, aquelas que usamos para diminuir, depreciar e humilhar o comportamento ou o jeito de alguém - com extremo preconceito, diga-se de passagem - talvez “gorila” esteja entre as mais antigas. Ou pelo menos desde que as nossas linguagens europeias conheceram a África e sua riqueza tão múltipla quanto infinita. Riqueza, aliás, hoje pelos descobridores condenada, vilipendiada e adoentada. Mas aí é outro assunto. Quero falar de gorilas, por enquanto. Porque chamar alguém de gorila sempre foi o mesmo que dizer que o sujeito é um brutamontes, insensível e monstruoso. Aí veio a Koko, aquela gorila que aprendeu a se comunicar com a Drª Francine Patterson, uma cientista norte-americana que sempre apostou na igualdade entre os seres e na força do amor. Koko emocionou o mundo não por usar mais de duas mil expressões humanas para se comunicar, entre gestos e palavras. Mas pelo seu amor incondicional pelos gatos. Ela, que não conseguia ter filhos, em gestos de carinho, delicadeza e proteção extremos, derrubou todos os conceitos e preconceitos dos limitados racionais humanos.
Que se ensinem milhares de palavras ou códigos aos seres vivos. Aos racionais, aos irracionais e até aos que se julgam racionais sem conseguir, porém, compreender a exata dimensão disto. Que se criem reflexos condicionados. Que se façam experiências. Porém, será sempre muito natural e despida de ritos a única linguagem compreensível entre todos os seres, a comunicação que não exigirá mais do que um olhar úmido, brilhante, gestos plenos da mais pura certeza ou apenas a contemplação: o amor. Não se exigirá formulários ou pré-requisitos, currículos ou sintonias, semelhanças ou proximidades estabelecidas. Apenas será. O amor é assim. Ele apenas é. E o é entre todos e quaisquer seres vivos.
Não há força neste mundo que supere o amor. Apenas um amor será o bálsamo que cura, alivia, protege, acalma, satisfaz. Que estanca as violências, as intolerâncias, o ódio. Só que o amor ainda é natural e muito antigo. Porém, é bom alertar: ele não entende mensagem de whatsapp ou rede social. Ele precisa mais, muito mais. Quer presença real porque precisa olhar. Precisa desnudar. Tocar. Precisa de um silêncio morno onde se permita mergulhar à vontade no outro e nele se estabelecer, e entender, e nele estar, e nele permanecer e se aconchegar até que se sinta, em ambos, um só. Sem fórmulas ou máscaras. Apenas amor de verdade.

