"Tu me deste um nó, hein, guri?". A frase vinha com três pitadas de censura, duas de zombaria e uma outra - ainda que bem sutil, em colher de chá - de orgulho. É que estávamos aprendendo a ser gente. Ser esperto, não bobo. E o mundo é dos espertos. Quem não ouviu isso dos seus adultos? Quando criança a gente aprende que "dar um nó" em alguém pode ser uma arte, ou uma estratégia, uma sobrevivência. Até poder. Aquele jeito sorrateiro de desviar a atenção ato principal e, assim, escapar das suas temíveis consequências. Ou de maquiar a verdade a ponto de oferecer uma nova versão, apenas para torná-la, digamos, secundária, uma coisinha de nada. Não é como a desculpa esfarrapada. É mais ardiloso. E um caminho que existe para se escapar de represálias, castigos ou até - como no meu tempo - daquela senhora chinelada nos glúteos. Dar nó é a estréia na cultura da impunidade. Do bom e velho jeitinho. Na inglória lei de Gerson.
Eu trabalhava na zona norte da capital e compareci na casa de uma mãe que encontrara drogas na mochila de sua filha. Não era pouca coisa. Naqueles tempos (anos 1990), qualquer quantidade de droga levava para a DP. A guria, adolescente, tinha saído com o pai e chegou em seguida. Bueno, aí a coisa encrespou: pai e filha achavam um absurdo o fato de a mãe ter mexido nas coisas dela. Não tinha autorização!, berravam. E nos empurravam para fora da casa e pediam para ver nosso mandado, mesmo que a mãe repetisse que ela nos chamou e autorizou a entrada no quarto. O pai e a menina inflexíveis, transtornados. Aí a mulher protestou, em lágrimas: é a saúde da nossa filha, é droga, é a vida dela que precisamos salvar! O marido deu de ombros. Mexer na mochila da filha sem autorização era ilegal. E a polícia entrar na casa, que estava no nome dele, sem mandado de busca, também.
Deu flagrante igual e descobrimos, depois, que a guria vendia drogas na escola. Que o pai abastecia. E entre sua clientela havia crianças de dez anos ou menos. Depois, durante o processo, essas picuinhas alegadas pelo pai, esses "nós", foram várias vezes utilizados pela defesa na tentativa de anular nossa ação. E foi aceito! Ou seja: não era o absurdo de uma adolescente vender drogas para crianças em sua escola que era considerado como o fato mais importante. Mas os trâmites legais supostamente descumpridos. Lembrei deste caso no auê desta semana sobre gravações, delações, revelações e outras lambanças. Nos discursos inflamados sobre a correção jurídica deste ou daquele ato. Os tais "nós legais" dizem: não importa o conteúdo do que se revela, mas a forma como foi obtido para ser revelado ao povo, pagador de impostos. Ou: se for imoral, mas legal, nada houve, nada se sabe. Bah. Precisamos de um pouco mais de respeito.
