Ao ler por acaso o Blog de Valéria Fernandes, numas pesquisas sobre a situação das políticas públicas de proteção à criança contra violência sexual (achei pouco, muito pouco para o que acontece), lembrei deste conto, publicado no meu livro Calibre 40 (2010) e na Edição Impressa do Correio do Povo dominical em 2012.(a ilustração é recorte da original do Blog Shoujo Café, de Valéria Fernandes Da Silva, numa campanha de 2013 para ajudar uma menina vítima de violência - http://www.shoujo-cafe.com/2013/09/ela-foi-estuprada-e-mutilada-aos-10.html ). E parabéns à Polícia Civil gaúcha pela belíssima ação contra a pornografia infantil, noticiada hoje pelo Correio do Povo neste link.
Abaixo, o conto. Um mínimo recorte do que é drama e realidade infelizmente banalizada.
O Inspetor Ângelo Salvatore detestava seu nome e encarou o advogado com desprezo. Teve vontade de dizer que nunca salvou ninguém, nem coisa nenhuma, nesta vida sem sentido. E para anjo não servia. Definitivamente. Então, que o chamasse apenas de policial.
- Que seja. Mas o senhor entende? Melhor deixar como está, consigo um laudo médico. Um B.O., nestas condições, pode ser precipitado e desastroso. A família precisa ser preservada.
O policial olhou por cima do ombro do homem jovem e bem vestido. Lá fora, a Conselheira Tutelar caminhava de um lado para o outro, aflita, no pátio da delegacia. Pendurada no celular e tentando contato com parentes que não queriam ser localizados, que não queriam saber da criança, que se recusavam a falar sobre o assunto. Como se a responsabilidade não fosse deles. Pais? Não existiam. Pai morto, mãe presa. Coisa de tráfico. Um lar substituto parecia uma saída. Parecia.
A menina estava sentada no chão. Seis anos. Brincava com uma boneca, refugiada em seu mundo paralelo. Ângelo desviou os olhos da criança e olhou o calendário na parede da DP. Dezoito de maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Era menino, ainda, quando em 18 de maio de 1973, Araceli Cabrera Sanches, então com oito anos, foi sequestrada, drogada, espancada, estuprada e morta por membros de uma tradicional família capixaba. Ninguém foi punido pelo que aconteceu. Ninguém.
- Vou conversar com você, mocinha bonita. Tudo bem? – ele perguntou, ao se agachar ao lado dela, tentando uma aproximação que nem ele mesmo sabia como fazer.
O advogado se afastou para atender o celular. A menina não respondeu. E não se mexeu mais. Apertou os lábios, os olhos perderam seu resquício de brilho, as mãos se crisparam. A boneca, sem pernas, foi deixada de lado.
O policial ficou olhando o brinquedo. E, de repente, entendeu porque não precisava perguntar sobre a faca no pescoço do homem em sua casa, sobre de onde ela teria tirado forças, se mais alguém a ajudara, ou o porquê do sujeito estar nu sobre a cama. Não. A resposta estava ali, na boneca. Nas pernas arrancadas com raiva, com culpa, com nojo.
- Foi você? – ele perguntou, apontando as pernas que faltavam.
Ela apenas chorou em silêncio.
