Oscar Bessi

A coragem de um herói

O soldado da Brigada Militar Nicolas Nunes, de férias, não acordou naquela manhã imaginando que pisaria tão fundo na fronteira tênue entre a vida e a morte. Histórias como essa lembram que, por trás da sirene e da farda, há seres humanos que escolhem, repetidas vezes, correr em direção ao perigo para cumprir um juramento. Para que outros possam, simplesmente, viver.

Um ato heroico, em Esteio, RS. Foram frações de segundo onde sobreviver parece algo suspenso numa molécula de ar, à mercê de qualquer fagulha decisiva. O soldado da Brigada Militar Nicolas Nunes, de férias, não acordou naquela manhã imaginando que pisaria tão fundo na fronteira tênue entre a vida e a morte. Cuidando de afazeres seus, da sua casa, foi até uma agropecuária apenas para pegar um compressor emprestado. Mas, ao cruzar a porta do estabelecimento, encontrou o que nenhum policial deseja encontrar: dois homens armados e uma família rendida. Foi dominado, agredido, hostilizado. A cada segundo, lembrado de que ali ele não era apenas mais um cidadão, pelo simples fato de que os criminosos desconfiaram que ele seria policial. Então se tornou o alvo principal dos bandidos.

Ser policial, às vezes, é carregar consigo uma carga invisível que pesa mais do que o mero ato de vestir uma farda, um colete e um cinto de armas e equipamentos, quando de serviço. É carregar o peso de uma responsabilidade que pode chamar quando menos se espera, sem perguntar se está de folga ou de férias ou ocupado com a família. Nicolas sentiu isso na pele. Mesmo desarmado naquele instante banal, mesmo cercado, mesmo sob constante ameaça, manteve o que diferencia o preparo do improviso: o sangue-frio. Não reagiu por impulso. Não cedeu ao desespero. Observou. Esperou. Calculou. Porque, além da própria vida, havia uma família inteira dependendo de um erro dos criminosos — e da coragem dele.

E o erro veio. Pequeno. Rápido. Quase imperceptível. Mas suficiente. Em uma fração de segundo, Nicolas correu até o carro, alcançou sua arma e fez o que foi treinado para fazer. Deu voz de prisão aos assaltantes, que não aceitaram. Nicolas reagiu. Libertou os reféns. Feriu um dos assaltantes. O outro morreu no confronto. Não há heroísmo romântico nesse tipo de história. Há medo, há risco real, há vidas envolvidas, há a consciência de que qualquer movimento poderia ter sido o último. Mas há, sobretudo, compromisso. Compromisso com a vida alheia, mesmo quando a própria está por um fio.

No fim, as duas famílias, a dos donos do estabelecimento e a do policial, voltaram para suas casas, naquele noite, sem precisar chorar uma perda. Mas talvez ainda tremendo. Talvez em silêncio. Talvez sem dimensão exata do que quase aconteceu porque há coisas na vida que demoram a ser absorvidas totalmente. Nicolas voltou para os seus, naquela noite. Com marcas que não aparecem em fotografias. A Brigada Militar segue seu turno todos os dias, muitas vezes criticada, quase sempre exigida mesmo quando seus integrantes não estão de serviço. E histórias como essa lembram que, por trás da sirene e da farda, há seres humanos que escolhem, repetidas vezes, correr em direção ao perigo para cumprir um juramento. Para que outros possam, simplesmente, viver.