Outono. Um frio diferente toma conta do noticiário e provoca um leve estremecer nos desavisados. Teréu, o traficante, foi assassinado no refeitório da PASC. Cena de filme. No verão, meses antes, ele é apontado como o maior suspeito de ser o mandante da execução de um rival seu, em ataque requintado e pesado a uma mansão litorânea. A morte de Teréu gerou festa e foguetório no Condomínio Princesa Isabel, onde o rosto de Xandi havia sido pintado, para homenageá-lo. Onde a democracia se omite, as tiranias fazem banquete.Eles têm líderes e seguidores, esses traficantes. Comunidades sob seu jugo e exércitos particulares. Eles queimam ônibus, portam armas que nem a polícia tem, andam em carrões, têm escolta, pompa e proteção. Qual a diferença destes bandidos de hoje para os velhos integrantes da Cosa Nostra, que outrora assombrou o mundo com suas práticas brutais? Acertos de conta, balas à vontade, mortes em série. A força individual como árbitro de tudo, a violência atuando como juiz sem recurso, o estilo de vida típico das organizações criminosas de sempre. Os valores e os conflitos. As origens.
Como a Máfia, o poder do tráfico de drogas cresce graças aos lucros da ilegalidade. Da venda dos venenos aos inocentes, sim. Mas também à corrupção. É claro, e triste: ela está presente nalgum momento, ou tanta droga e tanta arma restrita não chegariam tão longe de maneira fácil e abundante. Não fomentariam a multiplicação assombrosa de um negócio tão lucrativo, como a morte alheia. O que não é corrupção, é passividade, omissão, interesse público maculado pelo interesse individual ou de grupos - sejam estes grupos o que forem. A preocupação da pesada máquina pública caminha distante, há muito tempo, das necessidades e dores do povo. Fica o vácuo. A erosão. A brecha. E a brecha é um cânion onde as máfias tomam conta, ganham terreno e ditam as regras do terror.
Porto Alegre está entre as mais belas cidades brasileiras, Mas seu pôr-do-sol traz ranhuras rubras, nervosas, rabiscadas de medo. O belo Caminho do Gol se ofusca por caminhos de sangue. Não merecíamos isto. Não merecíamos ver crianças morrendo executadas por rivalidades do tráfico. Não merecíamos execuções à luz do dia, ou à luz da lua, ou à luz nenhuma. Muito menos saber que um bebê, na barriga da mãe, sequer teve a chance de tentar escolher um outro caminho, mesmo que distante daquele que ela talvez tenha optado para si. Porto Alegre vive uma guerra em seu submundo. E ninguém pode adivinhar qual será o próximo ataque, as próximas vítimas. Mas toda forma de violência é burra. E, na sua burrice, pode residir nossa esperança.
