Oscar Bessi

A covarde execução do frentista

É necessário acreditar e investir mais na educação para evitar o desrespeito a normas e ao ser humano

Há uma menina, de 11 anos, que vai passar neste sábado o pior Dia da Criança que qualquer um poderia imaginar. Seu pai, há poucos dias, foi brutalmente assassinado. Executado por um demente. Um monstro que simplesmente enfureceu por ter sido impedido, pelo homem que ele mataria, de usar o banheiro feminino. Uma discussão besta e sem qualquer razão. O trabalhador, ao contrário desse sujeito que andava armado pelas ruas da cidade, apenas cumpria seu dever de profissional e cidadão. Era parte do seu trabalho fazer com que algumas mínimas regras fossem cumpridas naquele posto de combustível. Ora. Está cada vez mais comum alguém se ofender quando se chama a sua atenção apenas para que cumpra alguma regra. A maioria quer fazer o que quer e os outros que se danem. Isto acontece até mesmo nos ambientes escolares. Perguntem aos professores. São alunos que se ofendem, ofendem quem trabalha na escola e, o pior, pais que vão à escola, volta e meia agressivos, exigir explicações do porquê seus filhos terem a atenção chamada por um professor apenas por não cumprir uma regra. Este é um retrato comum e cotidiano do nosso país.

É “impoliciável” esse tipo de comportamento humano. Porque é nada mais do que o resultado de uma educação destroçada que nos aflige e asfixia feito tsunami. Ande pelas ruas. Saia nas noites. Visite o mundo real e verá o quanto a ausência de valores humanos básicos e limites comportamentais está banalizada. Ninguém nem aí para as consequências dos seus atos. A violência brotando feito erva daninha em lugares e ocasiões improváveis, impregnada no comportamento egocêntrico, fútil, raso e acéfalo. Onde a vida se esfarela sem importância e o diálogo parece um milagre. Para piorar, há quem defenda mais armas à disposição desses loucos nas ruas, há quem defenda perdão eterno para criminosos que só sabem voltar a cometer crimes – como o assassino do caso em questão, que já tinha antecedentes por tráfico de drogas, apesar de bem jovem, mas andava por aí, livre e armado - e há quem condene inocentes à morte por defender suposições, utopias e ideologias radicais distantes da realidade. Uma pena. Há tanto esforço, de tantos, para uma sociedade melhor. Esforço que parece ter sido inútil quando algo assim acontece.

Um pai nunca mais estará na casa que tanto amava, cuidando da família como era seu maior prazer. Uma família nunca mais terá a mesma alegria. Um local terá para sempre a sombra da violência em suas lembranças, ainda que o atropelo da vida pareça fazer cair no esquecimento todo o drama intenso que se viveu ali. E um criminoso foi preso, para, talvez, ser solto outra vez logo mais, como tantos outros o são, o tempo todo, só para voltar às ruas com sua violência e suas armas e seu desprezo pela vida e pelas regras mínimas. E talvez ele encontre outros desses heróis anônimos que se desdobram na velocidade da luz, e na força de mil, para oferecer um pouco de dignidade às suas famílias. E esse herói apenas cumpra o seu papel, banal e cotidiano, de exigir respeito a alguma regra ou a alguém. E seja fria e brutalmente assassinado por isto. Como aconteceu na zona Norte de Porto Alegre. Como ainda acontecerá tantas vezes, infelizmente, enquanto não descobrirmos que coisa é essa chamada Educação.