Oscar Bessi

A cruzada essencial contra o narcotráfico

Madrugada. PMs do Pelotão de Operações Especiais do meu batalhão, em São Sebastião do Caí, me avisam: mais um indivíduo é capturado em plena atividade de tráfico de drogas. Com ele, várias embalagens de cocaína. Aos 46 anos, ele tem (além da denúncia da comunidade sobre o tráfico) antecedentes de roubo a mão armada, porte ilegal de arma e arrombamento (os colegas que me perdoem, mas uso a linguagem popular, para que todos os leitores entendam bem os fatos). Sua freguesia? Jovens. Essencialmente jovens. Fundamentalmente jovens, muitos deles menores de idade. Mas ele abre na delegacia o nome dos responsáveis pelo comércio de drogas onde ele é apenas um “boqueiro” que, agora, vai arcar com o prejuízo. Sabe lá Deus como. Mas fala só dos imediatos, os que mandam que ele venda, os que estão apenas um nível acima na cadeia de vendas e são tão ralés e minúsculos quanto ele. Os maiores? Silêncio. Sempre é Silêncio. Não se sabe, não se quer saber. Todos reagem assim. E ainda perguntam se os policiais estão loucos de achar que falariam alguma coisa além do que já disseram, e talvez nem pudessem ter dito. Toda vez que caem, eles têm mais medo da hierarquia do narcotráfico do que da polícia, ou do judiciário, ou de qualquer outra consequência legal e oficial pelo que fazem. Eles não temem o Estado. Nem a sociedade. Eles só temem ao próprio narcotráfico que os sustenta.

Na manhã de ontem, uma criança de seis anos assistiu sua mãe ser morta numa chacina em Tramandaí. Três pessoas executadas. Três vendedores de drogas. Cinco homens armados e sem intenção de poupar munição para cumprir sua macabra tarefa. A princípio, a investigação da Polícia Civil já aponta para acerto de contas entre traficantes. Mais um episódio violento na guerra interminável, dias depois da apreensão de um arsenal de guerra em poder de traficantes por parte da Brigada Militar na capital. E quando numa cidade com 20 mil habitantes, como a que trabalho, de história e cultura interiorana e pacífica, comporta toda semana ações contra o tráfico de drogas e apreensões diversas, tendo direito até a uma guerra entre rivais com lista de marcados para morrer (dois foram), ordens emitidas de dentro do presídio e ameaça de emboscada contra policais, ou quando as metrópoles perdem o controle sobre sua gente e seus atos violentos e não protege mais sua juventude de coisa alguma, aí a gente pensa: falhamos. Todos. O contexto. Porque está valendo a pena vender drogas, mesmo com o risco de acabar executado, e estamos sendo incompetentes para convencer estas pessoas do contrário. E está sendo bom usar drogas. Quantas culpas residem nestas duas constatações?