Oscar Bessi

A deliciosa confusão da vida

A gente reclama da vida. Reclama mesmo. Do trânsito, do tempo curto, da grana curta, do barulho longo. Reclama da família e dos amigos. Dos compromissos e da falta do que fazer. Dos gritos e dos silêncios. Da insistência e da distância. A gente protesta contra o inesperado que assusta, mas não quer mais o já esperado, que nunca muda. Somos assim. Reclamamos. Brigamos com o espelho e com o relógio, com o jornal e o computador, com o carro e com o próximo. E despejamos doses de raiva na erva-daninha que apareceu do nada, esmagamos o inseto que nada fez, oferecemos um desaforo a quem nem conhecemos.

Sim, a gente reclama da vida.

Porém, é quando ela ameaça escapar por entre os dedos, que a gente percebe o quanto ela pode ser única. Insubstituível, e por isto preciosa. O quanto ela pode ser maravilhosa mesmo tão imperfeita. E se sente falta do barulho quando o silêncio ameaça ser irreversível. E se sente falta da erva-daninha quando o deserto parece ter secado tudo ao nosso redor.

Só quando o susto de perder tudo o que temos se apresenta, é que conhecemos como pode doer a ausência do que não valorizamos. E daquilo que talvez valorizemos demais, e são apenas conflitos naturais e inevitáveis de um mundo cheio de gente, cheio de coisas, cheio de opções e possibilidades. O quanto nos deixamos levar por raivas gratuitas, rancores desnecessários e brigas evitáveis.

Depois que a perdemos, depois que a vemos partir de alguém que amamos com todas as nossas forças, ela demora a recuperar suas cores, seus cheiros, seus sabores. Às vezes isto nem volta mais.

Lembro bem. Após dias de clausura, mal conseguindo caminhar e respirar, enfiado num apartamento e vendo o mundo à distância, coberto de remédios tão fortes quanto caros, eu quase chorei de emoção ao dirigir outra vez. E pegar um engarrafamento. Acreditem. Era a vida pulsando novamente, possível, ao alcance das mãos.

Confusa? Incoerente? Injusta? Sim.

Mas a vida múltipla e viva.

Claro que eu quero um mundo melhor. Eu quero sorrisos por todo lado. Eu quero sonho e aventura, emoção e coerência. Eu quero lei de verdade, eu quero ruas sem bandidos, pessoas podendo passear onde quiserem na hora em que desejarem, quero casas podendo ficar com suas janelas abertas esperando apenas a brisa entrar, não a violência. Quero honestidade como exemplo, e não malfeitores de terno e gravata ou boné virado ditando modas e proibindo caminhos aos nossos filhos. Mas também quero apenas a vida. Confusa e bela. Desafiadora. E que ela esteja ao alcance de nossas mãos. Só isto.