Oscar Bessi

A descoberta

 



Um novo cenário. O mensageiro chega até Cabral que, sozinho, na proa da sua caravela, murmura e gesticula agitado, enquanto segura um papelzinho na mão com o discurso do “Terra à vista!”. Está ensaiando para o grand moment, dali algumas horas.

- Chefe! Chefe! Mensagem urgente pro senhor!

- Ô, Gajo! Tu não tinhas que estar pendurado na gávea, pra me avisar das terras que vamos descobrir?

- Não deu tempo, Seu Cabral. É que o seu celular tocou.

- Mas eu deixei no silencioso para não me atrapalhar, ô pá!

- Mas vibrou. Eu vi. E era o Rei. Já aviso que ele mandou torpedo pro senhor.

Cabral pega o seu celular, vê que o sinal está péssimo - a costa brasileira é terrível, terrível! - e lê a mensagem. Fica espantado. “Volta, esquece essa missão. Não vale a pena. Tive um pesadelo, uma espécie de sonho premonitório. Assustador. Nele, pude ver o que vai acontecer nessas terras aí daqui a cinco, seis séculos. Terrível. Não consigo mais. E será tudo culpa nossa. É melhor deixar pra lá, ou passa pra outro!”, implora Dom Manuel. E encerra com uma carinha de ponto-e-vírgula e parêntese.

Cabral, que até aquele dia nunca havia feito nada de importante na vida, decide ignorar a mensagem. E pede ao timoneiro que dê algumas voltas, ô pá, e encontre qualquer calmaria onde pegue aquele raio de telefone. Precisava negociar aquela descoberta com outro rei. Afinal, ele também tinha lá os seus sonhos. Que incluíam encerrar carreira num paraíso litorâneo, com a gorjeta de compras públicas superfaturadas, algumas ações milionárias da Petrobrás no bolso, etc. O problema foi que a caravela deu voltas, voltas e mais voltas. Mas acabou dando de cara com o Monte Pascoal. E aí a maionese desandou de vez.

Muito tempo depois, em suas memórias, Cabral se isentaria de culpa. E jogaria a responsabilidade nas mulheres nativas sem roupa, nos homens de muita roupa - mas sem escrúpulos -, nos escravos que não entenderam que seu sacrifício era apenas um investimento necessário e transitório, nos matos sem fim que precisavam dar espaço ao progresso, nas gaivotas. Principalmente nas gaivotas. “Eles nos distraem. Aí vem alguém e, pá!, nos aplica um imposto. Ou nos bate a carteira”.