Oscar Bessi

A Fantástica Fábrica de Cronistas

14462776_1583893505240428_8333462150023488402_nO título acima é só porque eu lembrei, ao pensar na Oficina Santa Sede, do filme "A Fantástica Fábrica de Chocolate", que marcou minha infância e a história do cinema universal. Não há "fábrica" de escritores. Nem de artistas. Mas há ambientes propícios às seduções e aperfeiçoamentos que toda arte exige. A culpa pela improvável relação é do Rubem Penz: "Todos sabem, a crônica é um gênero boêmio por natureza. Esta oficina a devolve ao habitat natural - a mesa de bar juntando a sede com a vontade de escrever", diz o o escritor e organizador. Confesso que, assim como levei meus filhos a visitarem uma fantástica fábrica de chocolates em Gramado, cheio de sedes e expectativas infantis ressuscitadas dentro de mim, a cada publicação das oficinas do Rubem eu reencontro, também, prazeres de menino. Era quando vivia enfiado na biblioteca de minha escola e devorava a coleção "Para gostar de ler".

É claro, eu preferia as crônicas. Sempre. Era um timaço de cronistas: Machado de Assis, Fernando Sabino, Carlos Drummond, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Carlos Novaes, LF Veríssimo, Lourenço Diaféria, Affonso Romano de Sant"Anna, Ignácio de Loyola Brandão, Rachel de Queiroz, Moacyr Scliar, Stanislaw Ponte Preta, Marcos Rey, Ferreira Gullar, Millôr Fernandes e outros, tantos outros, no que considero a mais generosa obra de literatura já produzia neste país para despertar a boa leitura, o gosto pelo livro e a prática do raciocínio crítico no Brasil. E, pasmem, eram anos de ditadura!

Então, graças a estes caras, e esses livros fantásticos, eu me apaixonei por crônica. E tento ser cronista até hoje. Tenho sobrevivido graças à minha meia dúzia de leitores, no sétimo ano de Correio do Povo, no Jornal Ibiá - onde fui cronista diário por quatro anos e só pedi para voltar a ser semanal por causa dos outros trabalhos - e na minha querida Folha de São Borja.

Mas quero falar do Rubem. E da Santa Sede.

Rubem é um cronista clássico. Um escritor que leva a sério a sua arte, a sua paixão pelo gênero e um sujeito trabalha continuamente, com afinco e seriedade absoluta, o ofício de escrever. E de escrever bem. De lapidar palavras para que elas cheguem ao leitor sendo puros toques sensoriais. Ele também é músico - e talvez daí, dessa junção de sensibilidades maximizadas, surja o ritmo impecável do cronista. Ou vice-versa. Enfim, ler Rubem é um deleite. Aprender com ele é um presente para os que merecem.

E a Oficina Santa Sede é uma delícia. Um capricho em cada detalhe, na escolha de seus símbolos, suas letras, suas imagens, suas chamadas, sua postura. E seus integrantes. E o local onde acontece. Não é "edição 2016", ou volume tal: é "safra 2016". Nada mais adequado. É o charme de Rubem que está ali, o estilo do clássico cronista de botequim, o amante da vida que pulsa possibilidades e inspirações e transforma tudo isto em textos com apuro, trabalhados e retrabalhados na persistência de quem ama o que faz. Os oficineiros se sentem especiais. Artistas da noite porto-alegrense, personagens imersos no mundo que irão vasculhar e, sobre este mergulho, escrever. Rubem inova e enfrenta a maré da frieza tecnológica sem, no entanto, abrir mão dela: ao contrário, toda tecnologia é bem-vinda, desde que esteja disposta a aceitar as regras da arte e sentar para um chope e muitas ideias.

Já tive grande amigos, nesta oficina, que hoje leio como grande admirador. Gerson Kauer é um. Esta edição, porém, considero especial por trazer em seu elenco de alto nível um escritor cujo primeiro texto li há pouco mais de três anos, e deveria ter sido apenas um desabafo no espaço do leitor no jornal da minha cidade. Mas não era. Era uma crônica de altíssimo nível. Entrei em contato com ele no mesmo dia e, algum tempo depois, éramos quatro amigos cronistas num grupo chamado "Pé no barro", de chope e crônicas e conversas interioranas (ou não). Nosso problema foi ficar mais no chope do que nos textos. Ainda bem que os deuses da literatura o levaram para a Santa Sede. Ele se chama Magnus Pilger e vocês ainda ouvirão muito sobre ele.

Dia 24 de outubro, a partir das 19h, lançamento da "Santa Sede, safra 2016", na Rua José do Patrocínio 527, na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Não poderia ser em lugar melhor.