(coluna da edição impressa de 24/9/16)
Gosto demais de conversar com os jovens. Sua inquietude é fascinante. Tenho saudades do tempo em que eu acreditava em ideologias partidárias e transformações radicais, escrevia poemas de protesto e amor. Tento preservá-la dentro de mim, essa juventude. Mesmo que resista em brasa morna o que outrora foi incêndio. Mantenho os sonhos. E o que me levou à literatura juvenil foi a de conversar com a garotada. Era algo que eu já fazia como policial militar, só que hoje me permito um leque maior de abordagens. E desfaço o preconceito do professoral e chato sisudo que vai lá para que eles apenas durmam. Não. Rimos muito. Falamos de música e futebol. Falamos de histórias boas e ruins, falamos de escrever e falamos de drogas e violência.
É uma linda fase de fragilidades. E não apenas porque lembro que, aos quinze anos, eu amava de um jeito utópico e acreditava no monstro do lago Ness. Vai além da ingenuidade. Cada menino e cada menina é uma moeda de ouro aos olhos de muita gente inescrupulosa. Sabendo desse fogaréu de inquietudes e conflitos, eles aproveitam, porque a adolescência pode ser muito doída. Não creia que ali, entre aqueles seres humanos em formação, há apenas leviandade, futilidade e ignorância. Lembre-se de si mesmo. Há mais, há razões e conflitos, frustrações e medos, paixões e possibilidades. E uma vontade maluca de ser gente. Estão ávidos por conversar, trocar experiências e visões de mundo, crescer. Não respeitar isto é oferecê-los de um jeito cruel e insensível às feras de plantão.
No bate-papo com a garotada de uma escola sobre meu livro “Um caminho no meio das pedras”, um estudante me perguntou o que me levou a ser policial, apesar de gostar da literatura desde cedo, “o que tem a ver?”. Contei minha história. E falei do quanto me abalou ver alguém que eu gostava demais mergulhar no mundo das drogas até ser ultrajada e tratada como lixo. Dói o dobro quando é com quem a gente ama. Decidi passar a vida alertando e lutando contra esse monstro. Na mesma plateia, um grupo torceu o nariz quando eu disse ter asco em relação a traficantes, gente que usa as dores dos outros para ganhar dinheiro, sabendo que a pessoa só ficará pior. E contei sobre a quantidade de esterco que encontramos, por exemplo, em maconhas apreendidas, apenas para ilustrar que a falta de caráter, de quem vende isto, não é diferente de quem falsifica o leite ou desvia verba no governo. E contei outras histórias reais, nada leves. Na saída, vieram me procurar. Queriam saber mais. Trouxeram perguntas que julgavam respondidas. E foi uma conversa agradável, franca e alegre. Esses jovens são maravilhosos. A sonegação das respostas que eles poderiam alcançar é que leva, todos os dias, a episódios tristes como o do aeroporto, onde garotos assassinos e assassinados perdem o mundo.
