A guerra do tráfico
Uma das carnificinas movidas pelo tráfico de drogas foram as duas Guerras do Ópio, entre 1839 e 1860. Os ingleses, furiosos com os limites comerciais impostos pelos chineses, passaram a disseminar por lá o ópio, altamente viciante e produzido na Índia, colônia britânica. Tudo com ciência e anuência da Rainha Vitória I. Vendo o consumo da droga crescer como epidemia entre os seus, a China pediu para terminar com isto até em carta à Rainha. Não obteve resposta e tentou combater o tráfico. Afundou um navio carregado de ópio. A Inglaterra entendeu como um desaforo comercial e invadiu, matou muita gente e submeteu aquele povo aos seus caprichos. Vitória retumbante do tráfico de drogas. Pablito Escobar nem havia nascido e já tinha seus mestres.
Hoje, o negócio multibilionário das drogas movimenta uma bela fatia do PIB mundial, além de impulsionar a maior parte do "business" do crime organizado no planeta: tráfico de armas, de pessoas, corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. O jornalista e escritor italiano Roberto Saviano, autor de "Gomorra" e "Zero zero zero", frisa que não pode existir a criação de um poder econômico criminoso sem conivência e aliança com a burguesia saudável de um país. Ou seja, há realidades terríveis e, no paralelo, incompetência irritante que não as soluciona? Nada a estranhar. A frágil e suscetível racionalidade humana será sempre o cliente generoso e interminável do consumo de drogas, motor dessa indústria funesta e lucrativa. O resultado? Guerras fratricidas e cotidianas. E polícias enxugando gelo num esforço tão hercúleo quanto insuficiente.
A guerra do tráfico que chega à capital dos pampas é só mais um ponto cinzento nesta imensa realidade cruel. Mas mostra também a triste realidade de jovens, geralmente das periferias, cooptados como soldados lá na ponta do grande varejo. A falta de perspectiva e a baixa autoestima coletiva são alvos fáceis à sedução do falso poder ao se tornarem "traficantes". E ter um "respeito" que dificilmente teriam pelos caminhos normais e inglórios da vida. A ausência de investimentos na educação pública dá as costas ao futuro e joga crianças a sobreviver no vespeiro da selva de pedra e pó. É a mesma lavagem cerebral que arrasta, de um jeito simples, ao fanatismo do Estado Islâmico: torna quem seria outro ninguém integrante de uma nova "irmandade". Com poder sobre a vida e a morte do outro. Oferece medo, manda e marca território. Acha que tem bandeira quando, na verdade, são só levados como gado ao abate. Inocentes úteis. Como o negócio é bom, as disputas por mercados são acirradas e violentas, é preciso soldados para morrer. Enfrentar isto? Só com gestores públicos decididos e interessados, e muito, no problema. Bah! Difícil.
