Oscar Bessi

A guerra dos idiotas

Edição impressa de sábado, 03/09/16.


 


Os vídeos de violência multiplicam visualizações em redes sociais. Narrações inflamadas, oficiais ou anônimas, acompanhadas de comentários insanos. E de autores que surpreendem por sua antes dita postura civilizada, talvez máscara efêmera para vender algum produto seu para crianças que, eles sabem, lerão seus textos recheados de ódio. Poste um poema, ou um instante de conhecimento, e seu trabalho não será visto. Desanimador. O que seria a racionalidade, afinal? Diz o conceito que ela é a qualidade ou estado de ser sensato, com base em fatos ou razões. Então tá, a racionalidade é subjetiva, não tem volta. Parece lei brasileira - há sempre outro lado, um recurso possível para dizer que não é bem assim. De fato, vivemos num imenso caleidoscópio, cada olhar vê o que o cerca de um jeito, por um lado de sombra ou luz, sob sua forma e percepção. E o que me parece bom, ao outro, aqui comigo, será péssimo. Guerrearemos por isto? Bem provável. Por mais idiota que possa parecer.


No fundo somos apenas animais, como os outros todos de breve existência. Somos fome, desejo, afeto e raiva. O que de fato nos difere dos cientificamente catalogados como irracionais é o mal que eles não fazem ao mundo. Aos outros. Mesmo assim, sabendo dessa capacidade histórica, ou genealógica, de nos transformarmos em feras sem controle, de odiar gratuitamente, é de espantar o que ainda se vê. O ser humano descobriu tantas formas de controlar sua mente. Tantas lições belíssimas de harmonia e amor ao próximo. Mas as desdenha categoricamente ao primeiro lampejo de justificativas esdrúxulas. Pisoteia com gana em todas as lições que lhe disseram ser da civilidade e, a qualquer fagulha de pretexto, parte para a mais aguda monstruosidade. Ao primeiro sinal de uma boa razão, espanca, tortura, esmaga, violenta. E, com a pior face da sua anormalidade, justifica sua guerra em nome da paz. Que balela!


Chocante é a cena do gado, de força muscular e beleza plástica colossais, marchando sem contestação ou reflexão ao abatedouro. É a metáfora preferida dos poetas pela liberdade. O sorriso da cena cabe, só, aos donos do açougue. Os que lucrarão com os bifes, os resultados, com a satisfação de quem se alimenta daquelas mortes que vão além da questão de sobrevivência. Sim, porque o ser humano não mata para saciar a fome, sua ou de seus semelhantes apenas, mas, e acima disto, por mero exibicionismo, estética e prazer. E nas ruas, povo enfrenta povo, povo agride e violenta povo, no caos dessa guerra de idiotas que se permitem cabrestos de lá ou de cá. Ao longe, sorriem os donos dos grandes açougues humanos: tudo dentro da normalidade.


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